Elas chegaram lá!

Franquias que ultrapassaram as 200 unidades e passaram a figurar entre as maiores do País contam como conseguiram expandir e como evitar os maiores erros

O Brasil tem quase a mesma quantidade de redes franqueadoras que os Estados Unidos; em torno de 2,8 mil. No entanto, a escala é bem diferente.

Por lá, são cerca de 200 unidades por marca, por aqui são mais ou menos 40 franquias por rede.

Quando as marcas nacionais ultrapassam as 200 unidades, entram no seleto grupo das maiores redes. Isso traz visibilidade, mas também uma série de desafios, porque surgem maiores demandas logísticas, mais franqueados, mais suporte, entre outras coisas.

“Até 50 unidades, um franqueador tem mais trabalho e desafios que dinheiro em caixa. Pular para 100 requer ótima economia de mercado, além de estratégia, gestão e ­marketing. Em tempos de crise como o que tivemos, dependendo do nível de investimento necessário, o mercado retrai, franqueados se tornam desgastados e insatisfeitos e, por consequência, não fazem boa propaganda do negócio”, explica a CEO da Ana Vecchi Business Consulting Ana Vecchi.

Um dos maiores desafios de gerir uma rede com mais de 200 unidades é ter visão tanto para aquele franqueado que já atua há mais tempo no negócio, quanto para o que está entrando agora, geralmente em praças menores e que demandam outros tipos de suporte.

“É preciso ter a capacidade de segmentar a rede, conforme aspectos importantes na performance e características do negócio. Assim, é possível tratar problemas ou dificuldades comuns a um determinado número de unidades franqueadas e não como se todos estivessem enfrentando situações 100% iguais”, explica Ana.

Ela ainda recomenda ter um excelente Conselho de Franqueados e apostar em multifranqueados com visão de negócio.

Esses empreendedores ajudam a rede a figurar não somente entre as maiores, mas também entre as melhores.

Número chama a atenção do mercado

Ser uma franquia grande atrai olhares. A parceria da Sodiê Doces com a Nestlé, por exemplo, só veio quando rede já tinha 70 lojas.

“Durante uma feira de franquias uma consultora deles passou na frente do nosso estande e deixou um cartão. Há dez anos eu comprava deles e eles me ignoravam. A minha reclamação chegou até o alto escalão da empresa. Eles me pediram desculpas e lógico que visualizaram o mercado, a escala. Hoje é o nosso maior parceiro”, explica a fundadora da marca Cleusa Maria da Silva.

Com a parceria e o crescimento, a marca conseguiu ainda mais fôlego para expandir. Hoje, soma 312 unidades em território nacional, abriu uma fábrica de salgados em Boituva (SP), deve passar a comercializá-los em supermercados, padarias e lojas de conveniência ainda este ano e está prestes a inaugurar a primeira loja internacional, em Orlando, nos Estados Unidos.

Na visão da franqueadora, as redes brasileiras têm grandes desafios para conseguir expandir, além da infraestrutura.

“Falta de planejamento, pensar apenas no lucro e não ter um capital de giro são alguns dos erros cometidos. A expansão não é resultado de sorte, mas de muito trabalho”, afirma.

A força do boca a boca

Para conseguir ultrapassar a barreira do número de unidades, a Orthodontic apostou sempre em atualização tecnológica, feiras e otimização de processos.

Com o passar do tempo, os próprios franqueados indicavam a marca, segundo o sócio-fundador Fernando Massi.

“Acreditamos que um dos maiores desafios nesse sentido seja o de manter consistência e coerência ao longo da trajetória da marca. Mais difícil do que atingir um número alto de unidades é mantê-las ativas de maneira sustentável”.

Massi acredita que os altos impostos e a burocracia intimidam o empreendedor brasileiro, mas não devem ser um impeditivo para a expansão.

Assim como Cleusa, ele acredita que o crescimento estratégico e planejado seja o segredo para alcançar a escala.

“Para redes consolidadas e com modelos de negócios bem formatados, o processo de crescimento continua sendo algo natural, pois uma estrutura sólida de operação acaba blindando o empreendimento, na maioria dos casos contra os efeitos de variáveis externas.”

Pelas beiradas

A Não + Pelo apostou na interiorização para conseguir crescer e ultrapassar as 200 unidades. “Hoje, no Brasil, somos a menina dos olhos da matriz sediada na Espanha. A Não+Pelo está em 14 países, e o Brasil é aquele que gera o maior faturamento anual para a rede”, explica a franqueadora máster de São Paulo Thais Ramos.

O desafio, ainda maior para uma rede internacional, é a adequação a cada tipo de público. As questões culturais e demográficas têm que ser consideradas ao se pensar em uma expansão de grandes proporções.

“O franchising está diretamente ligado à geografia, demografia, cultura, hábitos, economia, entre outros temas que envolvem o empreendedorismo”, explica Thais.

A expansão meteórica, sem planejamento e visão de quais são as regiões com demanda para o negócio, é fator que atrapalha o crescimento de muitas redes.

“Modelos que dão certo atualmente realizam uma expansão espiralizada ou fazem como fazemos há nove anos. Construímos sete bases regionais para atender aos franqueados em todo o Brasil. É justamente aí que muitas redes acabam pecando: não se estruturam para atender as regiões mais distantes”, opina.