Esse tal de franchising

Muitas marcas que não nasceram com o objetivo de se tornarem franquias estão em franca expansão pelo País. Conheça algumas histórias inspiradoras

Na primeira quinzena de agosto fazia frio na capital paulista. Tanto quanto não se via há anos. Foi nesse clima gélido e pouco acolhedor que Cleusa Maria da Silva, fundadora da Sodiê Doces, chegou para a inauguração de mais uma franquia. A loja tinha um sabor pessoal de nostalgia e vitória para ela. Era a terceira operação sob o comando de Antônio Roberto Gabriel Neves, que foi o responsável por convencê-la a se tornar franqueadora, há mais de dez anos.

Neves ia todos os finais de semana de São Paulo para Salto, no interior, buscar bolos em uma das quatro lojas próprias que Cleusa geria com sua família. “Por que não coloca uma unidade em São Paulo?”, perguntava ele para a empreendedora. “Todo final de semana eu tenho que vir para cá buscar bolos para a família”, insistia.

Cleusa nem cogitava essa hipótese. Uma loja própria em São Paulo seria distante e teria custos elevados. O cliente sugeriu que ela franqueasse a marca e levasse os quitutes para a capital, mas ela nunca tinha ouvido falar desse tal de franchising.

Busca por conhecimento

Foi uma longa luta: Roberto passou um ano tentando convencer Cleusa, até que ela tomou uma decisão e, em seguida, um ônibus, rumo à capital. “Fui para a ABF, em São Paulo, fazer um curso. Voltei para casa com uns quatro ou cinco livros e fui estudar. Passou um tempo, liguei para o Roberto e disse que ele seria meu primeiro franqueado”.

Cleusa lembra que Roberto ficou extremamente feliz com aquele contato. Ele abriu a primeira loja na Vila Guilherme, zona norte da capital, em 2006. “Eu fui para a inauguração com frio na barriga, pensando `será que vai dar certo?`, `será que alguém vem aqui?`. Eu tinha medo que as pessoas investissem e perdessem dinheiro em um projeto que eu não tinha conhecimento”, revela.

O tempo mostrou que a coragem de Cleusa deu frutos. Já são centenas de lojas em território nacional e em 2018 deve ser lançada a Sodiê Salgados, que passa por piloto nas lojas atuais. “Foi uma emoção muito bacana testemunhar a inauguração da terceira loja dele. As pessoas vendo, comentando, parando o carro para olhar. Senti muito orgulho de ter sido perseverante”, comemora a empresária.

Isso dá franquia!

Em outra cidade do interior de São Paulo, em São José do Rio Preto, Paulo Yossimi já sabia o que era franquia e tentava implementar em sua empresa de venda de ingressos por automação, mas não era um negócio franqueável. “Fiquei com aquilo na cabeça, pois queria empreender uma franquia. Em paralelo, sempre observei o mercado de alimentação, me chamava muito a atenção”.

Em muitas das vezes em que ele se pegava pensando no assunto, estava almoçando uma marmita da Mineiro Delivery, que considerava prática para a sua rotina. Um dia, olhou atentamente a caixinha em que os alimentos vinham e teve uma intuição. “Aquela caixinha me remeteu ao China in Box, um gigante do setor de delivery no franchising. Marquei um café com o Gabriel Ventura, do Mineiro, e disse ‘vamos implementar o modelo de franquia para expandir por todo o Brasil’ ”, lembra.

A princípio, o fundador da marca não se sentiu muito confiante em seguir o conselho de Yossimi. Sobretudo porque ele já tinha sido procurado por um concorrente, com a mesma proposta, e recusou. “Ele relutou um pouco, mas acabou aceitando. Eu não entendia muito do mercado de franquia, chamei um sócio e iniciamos a formatação”, lembra Yossimi.

Aquele aperto de mãos aconteceu há pouco mais de dois anos. A Mineiro Delivery já operava sozinha há três. Hoje, são 122 contratos assinados e 58 franquias abertas. Yossimi revela que já há planos de internacionalizar a marca, em 2022. “Quando vemos um negócio, percebemos que tem potencial e pode gerar escala, devemos apostar. Se eu não tivesse visto a Mineiro, talvez não tivéssemos impactado a vida de tantas pessoas”, reflete.

Eu, franquia?

Vinicius Almeida e Alexandre Loudrada nem pensavam em sair de Taubaté, em São Paulo, com a escola de cursos profissionalizantes que fundaram. Eles tocavam o negócio de segunda a sexta-feira e aos finais de semana prestavam serviços de captação para outras marcas. “Um dos concorrentes que nós atendíamos, o Claudio Santana, nos chamou para almoçar e disse que queria fazer parte do negócio, ser o nosso primeiro franqueado”, relembra Almeida.

A dupla já tinha seis escolas, mas não sabia nada sobre franquia e nem pensava em expandir. Eles não tinham ideia do que sairia daquele almoço, mas as primeiras regras de operação foram anotadas no papel que serve de suporte para o prato. Ali nascia o embrião que daria origem à Evolute Cursos e, posteriormente, ao Grupo VA.

“Ele começou a trabalhar seguindo nossas orientações, e cinco meses depois, já tinha quintuplicado o faturamento. Isso deu um start que era um negócio replicável e valeria a pena investir”, explica Almeida.

Com o sucesso comprovado, os sócios buscaram uma consultoria especializada para formatar o negócio de franquia. A adequação exigiu a revisão da grade de cursos oferecidos, por exemplo. “Quando começa a transformar operação em franquia, nem sempre existe mão de obra em todas as cidades. Precisamos enxugar a base de cursos para poder alimentar o mesmo padrão de qualidade”, explica.

Cuidado com a empolgação

Histórias como a de Cleusa, Paulo, Vinicius e Alexandre são comuns no franchising brasileiro. Muitas vezes, o desejo de implementar o modelo de gestão não nasce com a marca, mas bate à porta do empreendedor e se torna inevitável.

Antes de tomar essa decisão, para se certificar de que a empresa é franqueável, é preciso observar alguns critérios, por meio da análise de franqueabilidade, que avaliza todos os processos da empresa e identifica se são sustentáveis operacionalmente e lucrativos, tanto para o franqueador quanto para o franqueado.

“Existem passos importantes que podem nortear o empreendedor a virar um franqueador. Ele precisa saber se seu negócio possui inicialmente os seguintes aspectos: originalidade, lucratividade, marketing, cadeia de fornecedores, logística, tecnologia, longevidade, sistematização, comercialização, transferibilidade, suporte contínuo e investimentos”, aconselha o especialista em franquias, Neander Souza.