A reinvenção do franchising

Como as franquias se reinventam

Novos modelos de negócios, jovens empreendedores e compartilhamento têm impulsionado a guinada no setor de franquias

A oportunidade de crescer levou as professoras de inglês Gislaine Dias e Denise Cabral, ambas com 28 anos, a largar as salas de aula e a procurar o próprio negócio. Hoje, elas são franqueadas da escola de idiomas InFlux English School. Dois anos após a abertura da primeira unidade em Sinop (MT), elas abriram outra escola em Sorriso, no mesmo Estado.
Gislaine e Denise representam uma realidade cada vez mais presente no mercado brasileiro: o jovem tem visões mais ambiciosas para o próprio futuro e não tem disposição para se enquadrar nas normas convencionais.

Cada vez mais, o cartão de ponto deixa de fazer parte da rotina do jovem trabalhador brasileiro. Home office, coworking, horários flexíveis e negócios digitais têm sido termos frequentes no ambiente de trabalho e obrigado muitas empresas a reverem seus modelos tradicionais.

Todos esses aspectos têm levado os jovens a novos caminhos iluminados pela luz do empreendedorismo. Estatisticamente, o dado foi recentemente levantado pela Fundação Estudar, que identificou vontade de abrir o próprio negócio em 69,8% dos jovens entre 18 e 24 anos. “Os resultados nos mostram que é essencial entender seus anseios, uma vez que isso afeta diretamente em fatores como retenção de talentos, turnover, engajamento e realização”, afirma o diretor executivo da Fundação Estudar, Tiago Mitraud.

Empresas atentas já estão de olho
Nos últimos anos, as marcas de franquia têm passado por atualizações para comportar o novo perfil do empreendedor, na visão da sócia-diretora da Franchise Store, Filomena Garcia. “As redes preparadas estão abertas para novas ideias e propostas e querem franqueados mais participativos, não só os que seguem estritamente as regras”, afirma.
De acordo com ela, isso é mais visto onde há dirigentes atualizados com o perfil tanto do candidato à franquia, quanto do consumidor. Empresas mais dinâmicas, rápidas e flexíveis são resultado dessa visão. “As redes mais novas tendem a iniciar em um processo onde não dá para ser de outro jeito, mas isso está ligado ao perfil dos empresários. Temos marcas centenárias que são modelos de sucesso. Fazem mudanças, estão ágeis e interessadas em ouvir”, explica.

Reinvenção do modelo
Pela primeira vez, a franquia norte-americana de limpeza Jan-Pro autorizou um franqueado brasileiro a abrir uma operação em um coworking. A ideia, segundo eles, é aproximar a marca das startups e do “público jovem”. A operação está em Salvador (BA) e tem como másterfranqueados jovens empreendedores, todos na casa dos 30 anos.

De acordo com o CEO da Jan-Pro no Brasil, Renato Ticoulat, acompanhar essa evolução dos locais e clientes, dentro da rede, é um processo natural dos tempos modernos. “Somos uma empresa com muita experiência de mercado, tanto nacional, quanto internacional, porém temos uma visão empreendedora jovem e atenta às novas demandas e tecnologias. Avaliamos com cautela toda mudança”, explica.

GERAÇÃO Y E MILLENNIALS
O novo modelo de expansão da Gigatron tem como público-alvo os jovens da Geração Y e os Millennials, de acordo com o diretor-executivo, Marcelo Salomão. Trata-se do Giga Drive, um serviço de armazenamento de arquivos em nuvem e que tem como foco principal pessoas jurídicas com alto volume de manuseio de documentos.

A novidade desse modelo é que não se trata de uma franquia tradicional, é um formato “afiliado”. O negócio permite a ele duas possibilidades de renda: uma é com a assinatura de armazenamento de dados, e o outro é com a venda do serviço “digitalização dos arquivos”. Ou seja, o cliente tem a possibilidade de solicitar a digitalização de todos os seus documentos ao próprio afiliado, que cobra uma quantia por isso.

“Esse novo modelo de negócio tem mais sentido para o jovem empreendedor pelo fato de não ter um alto compromisso e não ter a necessidade de ser 100% dedicado a ele. Um afiliado participa mensalmente da receita recorrente da ferramenta, além da possibilidade de gerar uma renda adicional através de serviços prestados no local para o cliente. Outro ponto interessante é que ele pode ser uma segunda fonte de renda pelo fato de não exigir exclusividade”, afirma Salomão.

Cultura organizacional descentralizada
No início desse ano, a holding de franquias multissetoriais SMZTO buscou uma consultoria para ajudar a tornar a gestão da empresa menos descentralizada, de olho no novo cenário mais colaborativo do mercado de trabalho. A metodologia é denominada Open Franchise. “Para nós, é importante embarcar no início dessa jornada e aprendermos com essas organizações de crescimento exponencial. Buscamos com isso, tornar a nossa relação com franqueados ainda mais harmoniosa, de forma que todos possam contribuir com suas habilidades para o crescimento de cada rede”, conta o CEO da SMZTO,  Guedes.

As primeiras marcas da holding a aderirem ao processo foram a Casa X e a rede de restaurantes de inspiração francesa L’Entrecôte de Paris. “Os franqueados passam, de fato, a participar da gestão da rede e as decisões tomadas em conjunto tornam-se muito mais assertivas”, explica Guedes.

O executivo explica que, no início, alguns franqueados ficaram receosos com a ideia, por medo de que a rede se tornasse uma estrutura sem regras e sem gestão. “Conforme as mudanças e os ganhos foram acontecendo, essa visão deixou de existir. As decisões são ainda mais assertivas, os serviços geram mais valor e há muito mais troca de experiências e de ideias com a participação de toda a rede na gestão”, afirma.

Papeis não podem se inverter
Filomena acredita que o grande desafio da próxima década será manter uma cultura de cocriação sem perder a definição clara dos papéis de cada ator do processo. “A diferença vai ser o perfil do principal gestor. É preciso ter um líder aberto para ouvir a rede, mas que saiba a hora de dizer que não dá para atender todas as demandas e todas as ideias. O grande desafio é saber como aproveitar as melhores oportunidades sem soltar as rédeas do negócio”.

Ela sugere que as franquias mesclem as equipes com os mais variados perfis para conseguir ler com mais facilidade as demandas do mercado. Um time diverso consegue resultados melhores.