“Vai dar tudo certo!”

Essa é a primeira frase que Alcione Albanesi diz para si mesma, todos os dias, ao acordar. Conheça a história de superação da empresária que comanda um dos maiores projetos sociais da América Latina

Alcione Albanesi sempre foi uma mulher de temperamento forte. Segundo a própria, nunca deixou que suas escolhas fossem feitas por terceiros e não se abateu frente a desafios ou hipotéticas desvantagens, por ser mulher.

De acordo com a executiva, a decisão mais difícil que precisou tomar foi escolher entre a gestão da FLC, fábrica de lâmpadas que construiu ao longo de mais de vinte anos de trabalho duro, e o projeto Amigos do Bem, que tem como objetivo erradicar a miséria no sertão nordestino. Ela fez sua escolha e desde 2014 detém 20% da companhia que fundou.

Seu sonho começou em uma pequena loja de lâmpadas, na rua Santa Ifigênia, em São Paulo. Alcione vendeu a pequena confecção que havia criado para empreender no ramo das luzes e precisou vencer a barreira de gênero, em um comércio a céu aberto totalmente dominado por homens. Com o tempo, conseguiu ser respeitada por seus colegas e vista como uma empresária do ramo.

Em viagens aos Estados Unidos, Alcione descobriu a tecnologia LED, que poderia ser muito mais aproveitável no mercado brasileiro. Decidiu ir atrás da origem, na China, por conta. Depois de muito trabalho, conseguiu o contato dos fabricantes e fez a encomenda.

Não deu certo na primeira vez, pois o lote que chegou era incompatível com as instalações elétricas locais, mas ela insistiu: sabia que o produto tinha potencial. “Se eu tivesse desistido na primeira viagem, nunca teria chegado à liderança de mercado”. Ela atribui o sucesso da FLC à construção de pontes, que foram essenciais durante todos esses anos.

Paralelamente à construção da indústria, que batia de frente com gigantes multinacionais, Alcione traçava um caminho que mudaria sua vida para sempre. De uma visita com 20 amigos ao sertão nordestino, em 1993, ela deu origem ao Amigos do Bem, que reúne atualmente 6,8 mil voluntários, o maior contingente em uma obra social da América Latina.

“Nós estamos entre os cinco maiores projetos sociais do País. Lutamos para uma transformação que tem sido um desafio grande para a gente também”, afirma.

Entre os muitos desafios pelos quais passou na sua vida, o último foi um curto circuito que incendiou um dos galpões no Nordeste, incinerando anos de trabalho. A empreendedora, no entanto, não se abateu. Preferiu guardar para si a imagem dos raios de sol, que surgiram quando a fumaça se dissipou.

Confira a entrevista que Alcione concedeu à Revista Franquia & Negócios ABF, durante sua participação na 16ª Convenção ABF do Franchising:

Como você consegue engajar tantas pessoas à causa?
Uma convicção que tenho é que não convencemos as pessoas pelas palavras, primeiro é pelo exemplo, para elas te seguirem, depois pela causa. Não tem como as pessoas não se sensibilizarem com tanta miséria no sertão.

Falando em liderar pelo exemplo, quais os desafios que já enfrentou por ser uma mulher com aspiração à liderança?
Eu nunca senti muito fortemente esse peso de ser mulher, para mim sempre ajudou, nunca foi um problema. Eu tive que vencer muitas situações difíceis, como ser a primeira e única mulher com loja na rua Santa Ifigênia. Afinal, é uma rua 100% machista, mas eu tive segurança e sensibilidade para lidar com isso.

Quais os desafios do empreendedorismo feminino?
Eu sempre fui muito segura. Adoro ser mulher, porque temos uma sensibilidade que nos ajuda muito na vida, mas temos desafios. Eu tenho quatro filhos, então passei pelas gestações, o período que, de alguma forma, tive que me ausentar do trabalho. Nós temos que nascer preparadas para sermos mães e um monte de coisa junto. As mulheres precisam criar a segurança em si mesmas e confiar na sensibilidade.

O que te motivou a organizar a viagem para o sertão? Você já tinha tido algum tipo de contato?
Não, foi a primeira vez que eu fui. Não tenho sequer parentesco no Nordeste. Minha mãe atende 2,5 mil crianças em creches, em São Paulo. As mães das crianças falavam para mim que miséria mesmo era no sertão. Aí, em 1993, resolvi reunir 20 amigos para ver isso de perto. Só que essa viagem mudou a forma de eu ver e sentir o mundo. Essa viagem me transformou, nunca mais fui a mesma. Nunca mais parei esse projeto e nessa vida eu vou até o fim. Até o último dia estarei trabalhando pelo ser humano, pelo povo do sertão.

Você passa dez dias por mês no sertão, in loco. Por que tomou essa decisão?
Isso é muito importante. Você pode terceirizar a construção de casas e a abertura de estradas, mas quando fala em transformar vidas, é corpo a corpo. Você não pode terceirizar isso. Vai muito além de entregar material. As ações do Amigos do Bem transformam as pessoas de dentro para fora, não o contrário.

O que mudou com a sua presença?
Desde o começo eu sempre estive à frente do projeto, nunca estive ausente. Mas o que eu vejo de transformação na vida das pessoas é que elas podem sonhar. Estamos abrindo as portas das oportunidades para que elas sonhem. Nós temos mais de 150 jovens na faculdade, estamos gerando emprego, dando educação com qualidade. Hoje elas já podem sonhar com o futuro. Nós estamos quebrando um ciclo de miséria secular. Isso é muito sério.
A maior parte das pessoas no sertão nasce e morre sem perspectiva. Mas temos confiança, vamos vencer. Nosso sonho não é ver 60 mil pessoas transformadas, mas ver todos os povoados do sertão, aqueles que ainda vivem em condições de extrema miséria.

De onde vem a motivação para superar os problemas, como o incêndio no galpão? Muitos teriam desistido ali.
Até as pessoas que fazem o bem podem perder. Perdemos as coisas materiais, mas não podemos perder a fé, a esperança e a certeza de que tudo dará certo. Isso eu mantive na minha vida, tanto na minha empresa, a FLC, quanto em todos os desafios. Todos passam por problemas e eu sempre superei, pensando “vai dar tudo certo”. Muitas vezes a gente recua para pegar mais força e avançar.

E os voluntários? Como mantê-los motivados, depois desse episódio?
Eles ficaram extremamente abatidos e tivemos que colocá-los em pé. Fizemos um acompanhamento com cada um, porque ali tinham anos de trabalho de muitos. Alguns questionaram Deus, mas eu disse que não fazemos troca com Deus, nós fazemos o bem pelos valores como nós enxergamos a vida. Estão todos muito bem, em pé, marchando. Um exército do bem.

Tem algo que você ainda queira fazer? Alguma meta pessoal para cumprir?
O que nós não conseguimos ainda foi gerar autossustentabilidade. Estamos no caminho, geramos hoje 750 empregos, mas são milhares de nordestinos sem nada, sem trabalho, no mato seco, sem conseguir plantar. Meu sonho é que a fome e a miséria sejam lembradas apenas como fatos do passado. Nós temos caminhos, só precisamos agir.

Os empresários podem ajudar a mudar essa realidade?
Os empresários nascem com um dom, uma visão ampliada. A responsabilidade social é um dever de todos e nós, empresários, que temos esse dom de empreender, de fazer as coisas acontecerem, se não nos dispusermos a olhar para o nosso próximo, não estaremos cumprindo o nosso dever perante à vida. Estaremos apenas ocupando um espaço nesse mundo que nos recebeu, sem colaborar com ele. É muito importante que todos nós deixemos uma marca também de transformação. Independente dos empregos que geramos, das vidas que são geradas através de nossas empresas, mas tudo isso gera um lucro para nós e temos que trabalhar para aquilo que não gera um resultado em números, mas gera transformação.

Se você pudesse dar um recado para a Alcione no início dos anos 1990, o que diria?
Não desista jamais daquilo que você acredita que é possível. Eu insisto e persisto para as pessoas não desistirem e se dedicarem. Às vezes, elas não se dedicam tanto quanto o negócio exige, aí o resultado, muitas vezes, não é compatível com nossa vontade.

 

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