Sai a geladeira, entra a almofada

Brasil Econômico – Erica Ribeiro – 02/04

Empresas de pequeno e médio porte de itens de decoração apostam na alta de vendas com a substituição de bens de maior valor por produtos mais baratos. Movimento é natural em tempos de crise, afirma especialista

Pequenas e médias empresas que atuam no ramo de produtos para casa e decoração, ao que parece, ainda não sentem tanto os impactos da crise em seus negócios e projetam crescimento de vendas para este ano, apostando na substituição, pelo consumidor, de bens duráveis de alto valor por itens que possam melhorar o aspecto da casa a um preço mais camarada.

A observação destes empreendedores é corroborada pelo consultor Marcelo Cherto, sócio do Grupo Cherto, consultoria especializada na formatação de empresas e franquias. “De fato, a sensação de incerteza e desconfiança do consumidor leva à queda de consumo em algumas categorias. É o caso de itens de maior valor agregado, como produtos de linha branca e imóveis. No entanto, em momentos de crise, melhorar o ambiente dentro de casa, comprando um produto simples que pode ser uma almofada, uma luminária, garante esse estado de compensação e de bem-estar. E é aí que empresas que vendem este tipo de produto e são criativas têm ganhos”, afirma Cherto.

Segundo ele, em boa parte, a expansão do negócio acaba sendo por meio de franquias. No fechamento de 2014, segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), foram identificadas 88 marcas franqueadas no segmento de casa e decoração, um crescimento de 6% ante 2013. No total, 3.912 unidades, entre lojas próprias e franquias, com a mesma alta de 6 % na comparação com o ano anterior.

“Esse movimento deverá aumentar. Minha consultoria recebeu consultas de quatro empresas do ramo de papéis de parede que querem se expandir. Em 29 anos, apenas uma empresa desse ramo havia nos procurado até então. O setor de casa e decoração ainda vai se destacar pelo aumento de unidades franqueadas. O que mostra que a crise é vista de fato como uma oportunidade para essas companhias”, acrescenta Cherto.

Com 70 unidades franqueadas e quatro próprias, a Uatt, que abriu suas duas primeiras lojas em Santa Catarina em 2008 também um ano de crise econômica -, já existia há pelo menos sete anos antes numa garagem. O foco eram presentes criativos. Hoje, são mais de mil itens, projeções de abertura de mais 36 lojas franqueadas este ano e o lançamento de mais unidades próprias fora de Santa Catarina, preferencialmente no eixo Rio-São Paulo.

As vendas estão indo bem, apesar do dólar alto, afirma Renata Santos, gerente de Vendas e Relacionamento da Uatt. Segundo ela, vale muito a pena importar as peças, produzidas na China mas criadas no Brasil.
 
“O custo da produção ainda é mais acessível. Estamos mantendo nossas projeções porque há um universo gigantesco a ser explorado. A crise gera uma carência no consumidor e ele busca algo que o satisfaça. Por isso, temos que ser criativos. Temos certeza de que o mercado se manterá aquecido”, diz ela, que também tem os produtos da grife em cerca de três mil multimarcas. O faturamento previsto para 2015 é de R$ 135 milhões. No ano passado, foram R$ 110 milhões.

Outra empresa que também surgiu na crise de 2008 foi a mineira Grudado Adesivos Decorativos. Luiz Henrique Rocha Amaral, fundador e proprietário da companhia, começou a produzir algumas peças como uma forma de complementação de renda e nem pensava em se tornar empresário.

“Porém, os produtos foram conquistando consumidores e passamos a aumentar as vendas na internet. Em 2011, implementamos uma série de mudanças na gestão e no direcionamento dos produtos. Isso foi um salto importante. Esse ano, estamos ampliando nosso mix, com móveis de PVC montáveis. Mas nosso foco continua sendo a decoração de paredes”, comenta Amaral.
Toda a produção das peças é feita na fábrica da empresa, em Belo Horizonte. Porém, a matéria-prima é importada.

“Para não aumentar os preços, decidimos melhorar nossa produtividade e criar campanhas para atrair mais consumidores. No ano passado, nosso faturamento foi de R$ 3 milhões e, este ano, será de R$ 6 milhões. As vendas estão muito boas e nossa meta é manter o foco no e-commerce e estar presente com nossas peças em mais redes varejistas”, adianta ele, que já vende produtos em lojas virtuais da B2W (Americanas.com e Submarino), entre outras.