Investir em franquia ou não?

Luiz Henrique Müller

O Brasil é a terra do empreendedorismo.

Não à toa, o franchising, formado quase na sua totalidade por pequenos empreendedores vinculados a redes de franquias, é um dos setores que mais faz sucesso e a cada ano atrai mais e mais interessados – mesmo em tempos de pandemia.

Contudo, apesar de este ser um modelo de negócio testado e validado e que conta com o know-how, a experiência e o suporte dos franqueadores, montar uma unidade não é garantia de sucesso.

São muitos os pontos que precisam ser levados em conta para mitigar os riscos e ter bons resultados.

Para ajudar os empreendedores nessa tarefa, o mestre em Administração, consultor, professor universitário e pesquisador na área de franchising Luis Henrique Müller, lançou o livro Franquias: Os dois lados da moeda.

Nele, o autor detalha o caminho das pedras para quem quer entrar no setor, aponta seus prós e os contras e ensina sobre gestão de pequenos negócios, contabilidade, custos e aspectos jurídicos, entre outros temas.

Para saber mais sobre a obra e as oportunidades no sistema, a revista Franquias & Negócios conversou com o autor.

Confira os principais trechos a seguir:

Você lançou recentemente o livro Franquias: Os dois lados da moeda. Qual foi a motivação?
Minha experiência no franchising iniciou em 2016, quando me tornei franqueado de uma rede de âmbito nacional.

Depois, em 2018, ingressei em outra de atuação regional.

Por meio de distrato amigável, saí de ambas, mas mantive a operação de uma como empreendedor, com minha marca própria, e da outra como loja independente multimarcas.

À medida em que conhecia melhor as operações e me deparava com alguns problemas e dificuldades, passei a conhecer centenas de franqueados de todo o País e, não por coincidência, pude verificar que os problemas e as angústias eram idênticos.

Constatei casos de sucesso e insucesso, erros e acertos semelhantes, tanto de franqueados como de franqueadores, alguns deles inclusive também cometidos por mim.

Mas o que mais me chamou a atenção foram diversas experiências bem dramáticas de pessoas que se aventuraram em negócios sem o mínimo de informação e experiência e até mesmo de casos de investidores que foram literalmente lesados.

Passei, então, a me aprofundar no estudo do franchising.

O que você descobriu?
Pesquisando a literatura, verifiquei que a maioria dos livros sobre o tema tinha abordagem exclusivamente jurídica, de marketing ou mesmo de gestão voltada ao franqueador ou ao empreendedor que pretendesse franquear o seu negócio.

Senti falta de algo que suprisse as principais carências do pequeno empreendedor, franqueado ou independente, que mostrasse como pesquisar uma oportunidade, como analisar a viabilidade do investimento, que tratasse de gestão de pequenos negócios, contabilidade, custos, aspectos jurídicos, entre outros, em uma linguagem não acadêmica e de fácil compreensão e tendo em mente que existe sempre os dois lados da moeda.

E quais são esses lados?
Quase tudo na vida pode ser visto sob ângulos diferentes, dependendo de quem observa o fato. Na minha convivência com franqueados e nas pesquisas que fiz, percebi que, na maior parte dos casos de insucesso ou até de mera insatisfação, os empreendedores só tinham conhecimento daquilo que lhes foi passado pelas equipes de expansão do franqueador.

Raros os que afirmaram ter analisado a COF (Circular de Oferta de Franquia) ou ter lido integralmente os contratos. Alguns afirmaram ter feito pesquisa superficial de mercado, poucos consultaram outros franqueados e nenhum garantiu ter conversado com algum ex-franqueado.

Lembravam bem do valor do investimento, que via de regra foi ultrapassado, e do prazo de retorno do investimento que lhes haviam informado.

Portanto, conheceram apenas um lado da moeda.

O outro lado o empreendedor tem que correr atrás com olhar cético e sem atropelos, pesquisar, analisar, buscar assessoria de profissionais, se for o caso, afinal, é o dinheiro dele que está em jogo e não costuma ser pouco.

No meu livro eu cito um artigo da advogada Melitha Novoa Prado intitulado Existem fake news no franchising?

Nele, a autora resume muito bem como se dá o assédio das equipes de expansão que vendem um produto, têm metas para cumprir e, portanto, usam todos os argumentos possíveis para vender.

Levando tudo isso em conta, você acredita que qualquer pessoa pode se tornar um franqueado?
Juridicamente, toda pessoa capaz pode ter um negócio próprio e, portanto, ser um franqueado, desde que aceito pelo franqueador.

Contudo, é praxe o franqueador exigir um determinado perfil dos seus franqueados e para isso faz uma seleção, podendo o interessado ser rejeitado caso não tenha os requisitos exigidos.

Todavia, muitas franquias sabidamente aprovam os interessados desde que tenham recursos financeiros para arcar com o investimento. Isso é fato, inclusive tem artigo publicado com pesquisa a esse respeito.

Se um candidato tem dinheiro e vontade de empreender, a franquia é a melhor opção?
Eu diria que é uma boa opção a ser avaliada.

Se é a melhor ou não dependerá das opções e oportunidades que o investidor tem à sua disposição.

A partir de análises e estudos avaliando a viabilidade do negócio é que ele deve tomar a decisão.

Evidentemente que as franquias têm uma considerável vantagem pelo fato de já ser um negócio formatado e testado com todo suporte agregado.

Com tantas mudanças nos negócios e na sociedade, o que o interessado em adquirir uma franquia deve levar em conta hoje em dia?
Realmente não é uma decisão muito trivial, porque são muitos fatores que influenciam na decisão, com investimentos e riscos variados.

Ele deve levar em conta a sua aptidão para aquele tipo de atividade, até porque, numa franquia, o ideal é o envolvimento pessoal do franqueador na operação, bem como o valor do investimento.

A dica, apesar de óbvia, é pesquisar muito e sem pressa. Se necessário busque ajuda, analise com algum ceticismo, faça comparações, certifique-se dos dados que lhe são passados.

Considere sempre os dois lados da moeda.

No livro, você deixa claro que franquia não é garantia de sucesso. Mas o que se pode fazer para mitigar os riscos e problemas e atingir bons resultados?
Negócios são investimentos de risco, portanto, nenhum tem garantia de sucesso, seja franquia ou não.

Mas o empreendedor menos avisado, ao ver uma loja bem montada num shopping, muitas vezes acredita que o sucesso pode estar garantido em função de tudo que vem junto a uma franquia.

Todavia, não é o franqueador que vai administrar o negócio e sim o franqueado. O sucesso depende de muitos fatores como concorrência, mercado, capacidade de gestão, atendimento e muitos outros.

Pesquisar muito e buscar capacitação para empreender são fundamentais para mitigar riscos.

Além disso, ser um franqueado ativo no negócio é fundamental, além de manter controles internos eficientes.

Como você avalia o momento atual do ­franchising brasileiro?
Acho que o franchising continua sólido, retomando aos poucos o crescimento, apesar da pandemia.

Tem tudo para crescer de forma cautelosa, especialmente as microfranquias e as franquias que exigem investimentos mais baixos, isto porque o investidor ainda se manterá avesso a riscos maiores por algum tempo, especialmente se considerarmos as dificuldades econômicas que o país vem enfrentando como inflação, taxa de câmbio e desemprego, sem contar que o próximo ano será tenso em virtude das eleições.

Por falar em pandemia, o que ela significou para o sistema?
A pandemia foi trágica em todos os sentidos e para todos.

Algo que estava fora de possibilidade de planejamento.

Costumo dizer que o único lugar que eu via a palavra pandemia antes era nas apólices de seguro e mesmo assim era um termo ignorado.

Acho que muitas redes foram abaladas, muitos franqueados tiveram que encerrar sua operação, mas o sistema em si me parece que resistiu e soube enfrentar o problema.

As boas franquias, inclusive, foram importantes no suporte prestado aos franqueados nos momentos mais difíceis.

Hoje, qual o maior desafio para as franquias?
Creio que os efeitos econômicos da pandemia vão perdurar por algum tempo e vão exigir muito sacrifício.

Acho que, por enquanto, é o momento de as franqueadoras olharem mais para a sustentabilidade econômica das suas redes de franqueados do que para a expansão.