Inovação é verbo

Inovação por Francisco Milagres

Francisco Milagres é palestrantes da ABF Franchising Week 2019. O especialista fala sobre inovação e empresas exponenciais

Já não é segredo para ninguém que o caminho para a evolução passa pela inovação e, em muitos casos, pela disrupção. No entanto, o conceito precisa ser genuíno e aplicado efetivamente à rotina da empresa, como um verbo e não como um adjetivo. O consultor da Mirach Ventures Francisco Milagres comenta que um dos maiores enganos das empresas é acreditar que a inovação pode ser baixada por meio de decreto. “A inovação passa por mudança de modelo mental e faz com que tenha sobrevivência do negócio. Mudança do mindset em todos os níveis”, explica.

Milagres é membro de conselhos de organizações em fase de transformação e é consultor em Organizações Exponenciais associado à plataforma OpenExO, criada por Salim Ismail – primeiro CEO e um dos fundadores da Singularity University, além de autor do best seller Organizações Exponenciais.

O especialista será um dos palestrantes da ABF Franchising Week, que acontece em junho, em São Paulo. Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu à Revista Franquia & Negócios.

O que caracteriza uma empresa exponencial?
São duas visões: a que captura novas oportunidades de mercado, que ninguém percebe, como AirBnB e Uber, e a que adota, com sucesso, características de empresas que cresceram exponencialmente, como as duas citadas. Qualquer empresa precisa ter um sistema imunológico que reage a um novo clima, uma nova bactéria, uma novidade. Assim como nós, que somos vacinados para evitar que adoeçamos e sobrevivamos a uma ameaça. Não sabemos como será o mundo daqui a dois anos, se os sistemas terão a capacidade de adivinhar o que a pessoa quer. A maior parte das empresas não está preparada para avançar rapidamente.

O maior desafio para as empresas inovarem atualmente é não ter um sistema imunológico?
Existem níveis de maturidade diferentes em diversos negócios. Hoje, o cliente vai em banco de forma diferente, mas tem outros setores que ainda não sofrem essa transformação na pele, como o varejo, agrícola e alimentação. Vemos que não é tecnologia que falta, é mentalidade das organizações, com os líderes e com o dono do negócio. Temos três níveis: quem lidera no dia a dia, quem dirige a estratégia e quem é o dono. E cada um deles tem anseios diferentes. Quando temos empresas de capital aberto, as empresas geralmente são medidas por trimestre ou semestre. Diretor tem meta de curto prazo e não quer fazer algo que não tenha visibilidade, e o acionista não quer investir em algo que não é tangível para ele. As pessoas naturalmente são construídas para pensar linearmente e se manter na zona de conforto, não estão prontas. O principal desafio não é tecnologia, são pessoas.

Pequenas empresas têm mais resistência para a mudança de mentalidade?
Sim. Quanto menores as empresas, é mais fácil elas se adaptarem quando já existe a mentalidade. Para sair desse estado do dono é um desafio. Geralmente, ele está nos três níveis, a empresa é personificada na sua imagem. A gestão é um pouco mais direta, não leva tanto tempo para tomar decisão, mas tem menos orçamento e ciência do quanto o seu negócio pode modificar no ecossistema.

No sistema de franquias, com vários donos e investidores, isso é ainda mais difícil?
Como falamos, “pessoas” é o principal aspecto. A principal inovação na capacidade de franquias é entender o que o cliente quer, e isso difere de acordo com a região e o perfil de oferta. Um produto pode ser vendido on-line, off-line e quem tem a informação é a ponta, é quem está na franquia, no dia a dia. Quem está na franqueadora perde essa informação de como o cliente pode interagir ou uma nova forma de usar o serviço. Quem está no dia a dia, consegue ouvi-lo e dar ideias para uma experiência centrada no cliente. Quando vamos criar algo temos que pensar no que o cliente quer. Ele tem a oportunidade de testar, apresentar isso para o franqueador e ser o cara que lidera. O desafio que vemos é a capacidade de insurgência. Capacidade de alguém que está lá na ponta e não aceita a realidade. Tem que vir de cima para baixo quando essa inovação é capaz de agregar várias informações de várias regiões, que individualmente não conseguiria perceber.

Como enxergar as oportunidades de inovação e melhoria?
A primeira forma é identificar entre os franqueados perfis de líderes, e criar nessas pessoas a capacidade de replicação por mentalidade de inovação. Dar liberdade de sugerir e criar processos que possam ser testados. Quem se disponibiliza a ser piloto de inciativa. Da mesma forma como temos que identificar quem é aquele que vai fazer fila para comprar o iPhone novo, por exemplo, quem são os três ou cinco porcento com capacidade de testar, inovar e aprender antes de replicar.

O cenário brasileiro é propício para o estímulo à inovação?
Vejo que é bastante favorável. Quando compara com concorrente, o parâmetro é preço e vejo que inovação traz dupla capacidade de melhoria. Como criar uma oferta que meu cliente perceba que é diferente, uma forma nova de ganhar dinheiro ou inovar sendo mais eficiente, fazendo a mesma coisa que eu fazia antes e o cliente não tenha a mudança no produto ou serviço. O que vemos é todo mundo buscando fechar o trimestre, fechar o mês e a capacidade de inovação pode ajudar: como fazer meu cliente ver que eu sou diferente? Como eu faço mais com menos?

Qual a melhor forma de estimular a inovação dentro das empresas?
A inovação é muito mais uma questão de cultura da própria empresa do que uma ação pontual. Não vejo algo como um decreto: “somos inovadores a partir de hoje” e todos os comandos vêm de cima. Não adianta alguém ser inovador porque leu um livro. Comprar um livro que ensina a jogar futebol, não o torna jogador, só se aprende a jogar jogando. Precisa de prática, e esse é o desafio das empresas: inovar por decreto não é inovação. A palavra-chave é cultura de inovação.