Faça você mesmo

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Faça você mesmo

Seja para testar o perfil do empreendedor, reduzir o investimento ou alcançar novas praças: o objetivo macro é inserir O franchising na era da colaboração

Pensando na sustentabilidade da rede, o CEO do Centro Britânico, Bruno Gagliardi criou o modelo de franquia Hunter, que tem como objetivo oferecer um período de teste para o franqueado saber se realmente se identifica com o negócio. “Durante o processo seletivo percebemos que as pessoas não entendem a real dimensão do que é empreender. Com isso, testamos a percepção do que elas vão enfrentar, de fato, e se vamos querê-las dentro da rede”, explica. A prática usual do mercado, de colocar o franqueado em uma unidade já em funcionamento, não servia para o Centro Britânico: o empreendedor perde contato com todas as variantes do início do negócio, que também são decisivas.

Se ao final de um ano o franqueado conseguir chegar às metas estipuladas (100 alunos e faturamento médio mensal de R$ 25 mil), ele investe o valor restante, que é de até R$ 350 mil, e consegue abrir a sua unidade. Se ele não se interessar pelo negócio e também não bater as metas, pode sair sem multas contratuais. No caso de ele não continuar com a franquia, mas ter alcançado as metas, pagará uma diferença de R$ 20 mil, para complementar a taxa de franquia.

Durante esse ano, o franqueado poderá atuar em home office ou coworking, para que não tenha custos elevados. Se ele próprio for da área de educação, não precisa contratar um coordenador pedagógico.

Tendência

O franchising, assim como toda a economia brasileira, tem passado por profundas transformações no período atual, conhecido como Quarta Revolução Industrial. A cultura do compartilhamento e a nova economia transformam as rotinas de empresas mais maduras, que têm história em modelos mais robustos e complexos de negócios. Atrelado a isso, o Brasil vem se recuperando de anos mergulhado em uma crise que obrigou os empresários a olharem para suas empresas de forma a reduzir custos e a torná-las mais eficientes.

Algumas dessas mudanças culminaram em novos modelos de negócios em redes de franquia consagradas em seus formatos tradicionais de expansão. Um dos caminhos que tem crescido é o da franquia “do it yourself”, em que o franqueado é responsável por todo o processo dentro da empresa.

“Há também os que gostariam de atuar em segmentos de negócio para os quais acreditam ter vocação, porém, não possuem o conhecimento necessário, não conhecem nada de estratégias comerciais e de marketing para conquistar e manter uma base de clientes. Assim, acabam por buscar uma empresa franqueadora que possa lhes dar acesso ao conhecimento necessário e às estratégias de marketing para se destacarem no competitivo mercado”, explica o diretor da MDS Franchising, Carlos Ruben Pinto.

Bom networking local

Baseado em sua própria experiência profissional, Leonardo Bortoletto criou o Clube da Permuta, em 2012. É uma plataforma de relacionamento empresarial que prevê o escambo entre os mais variados produtos e serviços. “Passamos a organizar encontros entre vários empresários de Belo Horizonte para apresentar o projeto e começamos as atividades com 12 associados, que se tornaram o G12. Foram os primeiros, mas, em apenas um mês de trabalho, conseguimos fazer com que 35 companhias se associassem”, explica Bortoletto.
Construtoras, hotéis, restaurantes, bufês, galerias de arte, advogados, contadores, arquitetos, academias, lojas de decoração, lojas de roupas e agências de viagem estão entre as empresas associadas. A ideia é que elas possam trocar viagens por feijão, por exemplo, em uma plataforma virtual. Cada troca dá crédito para que ela solicite algo que outra empresa ofereça.

Eles explicam que cabe apenas uma franquia por cidade, dado o perfil de relacionamento que o modelo exige O franqueado precisa comprovar sua rede de contatos e fica responsável por realizar os eventos de networking. “Tomamos muito cuidado ao analisar o perfil dos interessados para garantir o bom andamento das negociações. No começo, as empresas aceitaram fazer parte pela confiança que tinham em nós. Isso mostra a importância de o investidor ser muito bem relacionado com empresários de diferentes segmentos da cidade”, explica Bortoletto.

Modelo claro

O consultor associado à consultoria Ponto de Referência, Paulo Mendonça, acredita que esse modelo de negócio restringe o critério de seleção do franqueado. “É um outro modelo de franquias. Requer outro olhar do franqueador. Não me parece muito saudável abrir tanto a marca para franqueados tão diversos”, opina.

Mendonça acredita que todo o caminho tenha que conduzido com muita responsabilidade, pois eventuais problemas com modelos tão flexíveis podem respingar em franqueados antigos da rede. “O aumento de escala para negociação com fornecedores pode ser um ponto positivo, mas a condução da operação é o que me preocupa”, comenta.

Negócios na garagem

Com mais de 40 anos de história, a Sigbol Fashion criou um modelo de franquia chamado de “garagem”. O formato foi desenvolvido com o intuito de viabilizar o seu crescimento fora dos grandes centros, além de gerar oportunidade de profissionalização em um setor historicamente informal.

O novo modelo poderá ser operado em pequenos espaços de 16m² por apenas uma pessoa, reforçando o conceito do “faça você mesmo”. Com essa franquia, empresa quer chegar a cidades partir de 50 mil habitantes ou a grandes bairros das capitais. “Oferecemos modelos de negócio variados, com o objetivo de estar no maior número de lugares, atingir os mais variados perfis e também de ser uma boa opção de investimento para quem deseja ter uma microfranquia”, conta o diretor da marca, Aluízio de Freitas.

A rede tem a pretensão de faturar R$ 11 milhões em 2018 e se prepara para recepcionar o novo perfil de franqueado que vai operar as unidades garagem. “Entendemos que o maior desafio será tornar o franqueado multidisciplinar, entretanto, pelas próprias características do negócio, as demandas por marketing, vendas e administração são menores, o que facilita o processo”, explica.

É um novo modelo de negócio dentro da franqueadora, portanto, precisa de um suporte diferenciado, na visão de Ruben Pinto. “Terá que ser tratado de forma diferente, considerando as características do negócio em si e, sobretudo, o perfil dos franqueados, que terão outras demandas e outro tipo de formação”, explica.

Isso, inclusive, ajudará a impedir que eventuais problemas oriundos do novo modelo contaminem os formatos já consagrados da franqueadora.

Sustentabilidade dos modelos é incerta

Mendonça acredita que as franqueadoras que conseguirem conduzir os processos com mais solidez terão bons frutos no futuro. “Vivemos uma era de eliminação do supérfluo, em todos os aspectos, então, acredito que eles vão sobreviver sim. E, mais que isso, têm tudo para criar uma nova escola. Mas acredito que a questão não é se vão continuar, mas quais permanecerão”, pontua.

Com a retomada econômica, Ruben Pinto acredita que muitas dessas franquias deixarão de existir, pois o franqueado que tem perfil de funcionário procurará por empregos estáveis. É preciso que a franqueadora mantenha os critérios de seleção e acompanhe cada passo. O do it yourself não pode ser transformado em “Se vira nos 30”, na visão do especialista.