Entrevista

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Matéria reproduzida da Revista Franquia & Negócios Ed. 56
Com a veia empreendedora cada vez mais latente no brasileiro, é importante se atentar que o mercado está cheio de riscos e fracassos e alguns deles, por mais que sejam úteis para o crescimento profissional, podem ser evitados ou minimizados

Aprenda com o erro alheio

POR PAULO GRATÃO

Certas palavras é bom nem falar alto. Vai que atrai”. “Fracasso? Nada disso, é bom nem pensar. Vai que atrai”. O medo do (tom: sussurrando) fracasso (volta ao tom normal) sempre permeou o imaginário de pessoas e empresas, mas de forma enfadonha. Deixar uma empresa falir, então, é a prova da inexistência nata de talento para os negócios. De acordo com o Sebrae, a taxa de sobrevivência chegou a 76% em julho de 2013, um reconhecido ponto positivo para o empreendedorismo brasileiro. Mas e os outros 24%? Quebraram por incompetência ou erros de estratégia? E como ficou quem apostava ou dependia dessas empresas? Poucos executivos estão preparados para responder sobre o seu “fracasso”, que na visão do consultor de marketing, empreendedorismo e inovação e um dos autores do livro “Quebrando: aprendendo com os erros dos outros”, Hiran Eduardo Murbach, deve ser visto como uma etapa do aprendizado e não como o fim da linha ou algo que deva ser extinto da memória empreendedora. “O executivo precisa entender que ele não é o primeiro, nem será o último a passar por uma situação de crise. Ele pode, e deve, se consultar ou se informar com quem já passou por isso, ver que não está sozinho e que, às vezes, um simples conselho pode salvar sua empresa”, afirma.

A sinceridade é ainda mais imprescindível em franquias, tanto o franqueador consigo mesmo como com o prospect que, muitas vezes, investe o dinheiro de uma vida no sonho de ter o próprio negócio. Confira a seguir os principais trechos da entrevista com Murbach sobre o tão temido tema.

Quem é o atual empreendedor brasileiro?
O perfil é cada vez mais amplo. Hoje temos dois tipos de empreendedores que algum tempo atrás não existiam: os jovens e os provenientes das classes mais baixas. Isso se dá porque eles entenderam que qualquer um pode ser um empreendedor, cada vez menos existe aquela imagem do alto executivo, de terno e gravata, sisudo, detrás de uma mesa, comandando as pessoas.

Atualmente o empreendedor é uma pessoa inquieta, que não se encaixa em uma carreira tradicional e “quadrada”, e que quer ter mais liberdade criativa e de decisão, e poder inovar.

Eles são conscientes dos riscos que envolvem a abertura de uma empresa?
A maior parte acredita que tem esta consciência, porém eles ainda desconhecem muitos riscos. Falta uma formação mais sólida para o empreendedor, a maioria resolve empreender na cara e na coragem, e vai conhecendo estes riscos conforme eles vão surgindo.

Os executivos têm medo do fracasso?
Muito. Ainda vivemos em uma sociedade em que o fracasso é sinal de incompetência, não importa a razão pela qual ele se deu, e não uma ferramenta de aprendizagem, como deveria ser. Isto acaba por tornar os empreendedores e executivos menos arrojados e inovadores.

Quais as principais razões de falência de empresas atualmente?
As razões para as quebras são as mais diversas possíveis: situação econômica, perda de clientes, má qualidade do produto/serviço, empreendedor “aventureiro”, que acabou investindo em um ramo que ele não tinha conhecimento e não conseguiu se sustentar… Não importa o caminho, a quebra sempre acaba desembocando em uma situação: o alto endividamento bancário e as dívidas com parceiros, fornecedores e funcionários. Quando a empresa chega neste ponto, na maioria das vezes a situação é irreversível e ela vai quebrar.

É possível aprender com os erros dos outros?­
Quando um empreendedor começa a perceber que o seu negócio não vai bem, ele pode ter certeza que muita gente já passou por essa situação, alguns quebraram e outros se salvaram. Por isso é importante conhecer esses casos, saber como cada um reagiu a estas situações, quais caminhos seguiram e quais não seguiram.

Então, o aconselhado é tratar a mortalidade de empresas como algo normal?
A mortalidade pode se dar em dois momentos: o primeiro, quando a empresa ainda é jovem, é resultado de uma falha na validação do seu modelo de negócios ou então de uma desilusão do empreendedor no caminho escolhido. Nesse momento, apesar de não poder ser visto como algo corriqueiro, a “quebra” é parte do processo de empreender, e deve ser encarado como o melhor momento de desistir. Porém, existe um segundo momento em que a empresa é madura, o que significa que o seu modelo de negócios foi validado, ela já foi sustentável em algum momento, e alguma coisa aconteceu para que ela entrasse em crise. Neste momento a mortalidade das empresas deve ser combatida, pois é parte do ecossistema produtivo, possui fornecedores, consumidores, parceiros e funcionários que contam com ela, e a sua quebra trará prejuízos para muita gente.

Como identificar possíveis ofensores internos que podem levar a uma quebra?
No meu livro eu identifico que a maior parte das empresas que quebra é por razões internas, e quase sempre envolve alguma decisão estratégica errada do seu empreendedor. Pode ser um investimento errado, a contratação de funcionários, principalmente em cargos de gestão, que não são capazes, misturar a vida pessoal com a vida da empresa, tanto emocional como financeiramente falando, e a arrogância de achar que entende mais do seu negócio do que qualquer um, deixando assim de ouvir críticas e sugestões.

Como um franqueador pode falar sobre índice de mortalidade da rede ao prospect?
A segurança apresentada pelas franquias acaba atraindo também muitos aventureiros, que observam duas ou três unidades que são bem-sucedidas e acreditam que basta abrir a sua que automaticamente ela também será um sucesso. Não é assim. É preciso entender o perfil dos franqueados que quebraram, os motivos e as circunstâncias. Não existe uma franquia infalível, que funcione sozinha, e por isso não pode deixar se abalar. Ele precisa sim estar de olho em quais unidades são um sucesso, e se espelhar nessas.

Qual é a melhor forma de se precaver de enrascadas? Como o prospect pode avaliar que a empresa minimiza os próprios riscos?
Ao escolher abrir uma unidade de uma franquia como um plano de vida, o empreendedor precisa ter algumas preocupações. A primeira e mais importante é levantar a idoneidade do franqueador.

Pesquise sobre seu nome, sua participação no mercado, quem são seus sócios, se eles já tiveram problemas com outras redes antes, quantas unidades existem e se estes estão satisfeitos. É altamente recomendável que essa pesquisa envolva visitar outras unidades já estabelecidas, observar seus clientes e conversar com os franqueados para saber como é a experiência. E, por final, o empreendedor precisa estar muito seguro de que escolheu o ramo e o local certos para abrir a franquia. Apesar do franqueador oferecer todo suporte, de nada isso adianta se o franqueado não acreditar naquilo que oferecerá ou se escolher um lugar ruim. Estas opções são essenciais para o sucesso ou fracasso de uma franquia.

O que pode levar à quebra de franquias?
A franquia tem algumas características próprias, mas não deixa de ser um negócio onde o empreendedor terá que tomar decisões importantes todos os dias, gerir o caixa da empresa, os funcionários e saber o melhor momento de fazer ou não um investimento. É preciso entender que, para muitos, é o sonho de uma vida, e todo sonho envolve ser feliz. Portanto, antes de escolher uma franquia pense: “eu serei feliz acordando todos os dias para vir trabalhar com ela? Eu serei feliz abrindo mão de confortos e do tempo para trabalhar com isso?”. Pode ter certeza que o caminho do fracasso passa por ser infeliz naquilo que o empreendedor faz.

Publicado em 04/08/2014

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