Capacitação e troca de experiências elevam as chances de sucesso

JORNAL ECONÔMICO – MARGARETH BOARINI – 25/07

Na última década, o brasileiro aprendeu que não bastava sonhar e economizar dinheiro para ter a sua franquia. Para obter sucesso e afastar o risco de mortalidade da empresa era preciso investir em capacitação profissional e benchmarking constantes e num rico networking. Foi o que fez Fátima Rocha, sócia da MegaMatte, quando ela e o marido decidiram que era o momento de franquear seu modelo de negócio.

Formada em Ciências Contábeis e Direito este já feito para sanar dificuldades nas áreas tributária e fiscal, a empresária buscou capacitação sobre franquia na Associação Brasileira do Franchising (ABF) do Rio de Janeiro, em 2005. Dois anos mais tarde e depois de uma experiência-piloto, a MegaMatte inaugurou seu sistema de franquia e hoje tem 6 lojas próprias e 109 franqueadas. Com sede no Rio, a empresa está presente também em SP, SC e MG.

Altino Cristofoletti Júnior, um dos sócios da Casa do Construtor, teve trajetória semelhante. Ele e o sócio Expedito Eloel Arena, ambos os engenheiros civis, criaram um negócio focado na venda de materiais de construção e locação de máquinas já de olho na franquia a longo prazo. Com o crescimento da empresa, perceberam que alugar maquinário seria mais atraente ao mercado. Para evitar riscos de mau gerenciamento, Cristofoletti Júnior foi para a ABF São Paulo estudar o que era franquia, como estruturá-la e geri-la. Atualmente, a Casa do Construtor, com sede em Rio Claro (SP), tem 170 unidades franqueadas e 16 próprias.

A capacitação profissional e o benchmarking constantes se tornaram tão fundamentais aos negócios dessas duas empresas que ambas têm reforçado internamente a atenção à formação profissional de seus públicos. A Casa do Construtor criou sua universidade corporativa, com cursos para colaboradores e franqueados, e a partir do ano que vem abrirá vagas para fornecedores e clientes. Educação a distância está nos planos e Cristofoletti Júnior, que também tem diploma em Pedagogia e já fez um curso a respeito para entender melhor o funcionamento deste formato.

A MegaMatte tem um centro de treinamento voltado a colaboradores e franqueados e participa ativamente do curso de MBA de Franquias da ESPM do Rio de Janeiro, criado em parceria com a ABF local. Seu diretor de desenvolvimento e expansão, Rogério Gama, é um dos professores. Na avaliação de Ruy Barros, consultor do Sebrae-SP, a busca pela capacitação ajuda a reduzir riscos e cria oportunidades para expansão do negócio.

O Sebrae-SP oferece cursos para todos os estágios, desde como comprar uma franquia, estruturação de custos e precificação até plano de marketing e oficinas que contemplam o e-commerce e as mídias sociais. “O franqueador quer mostrar a marca. O franqueado quer mostrar o negócio. O que não se mostra não se vende e por isso é importante estar sempre atualizado para saber como mostrar e como vender”, afirma Barros.

O fato de matemática ser uma das principais deficiências do brasileiro faz a maioria das pessoas buscar conhecimento na área de finanças e plano de negócios, diz Batista Gigliotti, coordenador de franquias do Centro de Estudos em Empreendedorismo e Novos Negócios (Gvcenn) da Escola de Administração de Empresa da Fundação Getulio Vargas de São Paulo.

Outra característica, diz, é que os empreendedores brasileiros tendem a fugir dos riscos, sejam os inerentes ao negócio ou aqueles causados por questões contextuais. “Para ter um negócio perene, é necessário assumir que existem e preparar-se para driblá-los e afastá-los”. Neste caso, mais uma vez, a melhor munição vem da capacitação e do benchmarking.

O treinamento na prática continua sendo uma ferramenta indispensável. Segundo Sandra Betti, psicóloga e sócia-diretora do MBA Empresarial, o ‘on the job’ reforça o conhecimento teórico aprendido e enfatiza atitudes e valores de uma empresa na prática. “A capacitação dos empreendedores influi no crescimento do negócio e gera emprego e aumento de renda”, afirma Renata Chilvarquer, diretora de educação empreendedor da Endeavor.

Tanto a ABF de São Paulo como a do Rio têm dado prioridade à capacitação nos últimos anos. Na capital paulista, a associação oferece um MBA em Franquia resultado de parceria com a FIA-USP, entre outros cursos, como gestão de redes, locações comerciais e negociação. No primeiro semestre deste ano foram quase 3,5 mil alunos participantes em todos eles.

Juarez Leão, diretor de cursos e eventos da entidade e diretor de varejo e franquias da Portobello, diz que a intenção é oferecer cada vez mais módulos de aperfeiçoamento de curta duração. Quem busca uma franquia, chega para as entrevistas munido previamente de pesquisa sobre a marca à qual deseja se associar, a economia do país, o desenvolvimento do negócio, como é o tratamento dado a colaboradores, clientes e fornecedores e conhecedor da reputação da empresa.

“Não é mais apenas o sonho de abrir uma franquia que determina o investimento do empreendedor. Possibilidades de sucesso do negócio, baseada em valores e reputação, entre outros, pautam a decisão”, diz Leão. Para Beto Filho, diretor presidente da ABF do Rio, o investimento numa programação extensa de cursos favorece o aprendizado sobre o sistema. A Endeavor também oferece uma lista abrangentes de cursos, com temas como fluxo de caixas, concorrência, plano de negócio. Há três meses, a entidade lançou sua plataforma de ensino a distância e já contabilizou mais de 1,4 mil alunos. A tendência no setor agora é reforçar a atenção para o tema gestão de pessoas.