Brasileirinhos de futuro

Matéria reproduzida da revista Franquia Negócios – Edição 45

Por Andréa Cordioli

revista-franquia-negocios-ed-outubro-2012-01(1)Uma pesquisa feita com mais de 500 empresários de sucesso ao redor do mundo revelou: pelo menos seis em cada dez tiveram uma experiência empreendedora na infância. A estatística consta do livro recém-lançado `Heart, Smarts, Guts and Luck: what it takes to be an entrepreneur and build a great business` (Coração, Inteligência, Coragem e Sorte: o que é preciso para ser um empresário e construir um grande negócio), escrito pelos empreendedores Anthony K. Tjan, Richard J. Harrington e Tsun-Yan Hsieh.

Se o número impressiona, a história confirma. O americano Jack Dorsey é um exemplo de empreendedorismo que começou em tenra idade. O criador do Twitter – segunda maior rede social do mundo, avaliada em US$ 8 bilhões – já ganhava dinheiro aos 13 anos programando sistemas de rotas para empresas de táxi. No Brasil não é diferente. Rinaldo Helder Faria começou a trabalhar como mágico aos sete anos e, hoje, é dono da marca Patati Patatá, que, só na linha de brinquedos, vende 12 vezes mais que Turma da Mônica ou Disney.

Muito embora haja quem veja o empreendedorismo como uma habilidade nata, os pais têm incentivado e as escolas têm oferecido, cada vez mais, conteúdos que fomentam a atitude empreendedora. De olho nisso, no mês em que se comemora o Dia das Crianças, a Revista Franquia Negócios mostra alguns exemplos de negócios desenvolvidos por crianças e jovens que, se hoje funcionam como a semente do empreendedorismo, amanhã podem desembocar em grandes marcas, inclusive no franchising. A própria Edna Onodera, fundadora da franquia Onodera Estética, aos 11 anos já reformava móveis velhos e os vendia no quintal de casa.

Pequenos empresários

Cerca de uma dezena de alunos de 7 a 12 anos do Centro Educacional Anísio Teixeira (CEAT), no Rio de Janeiro, também decidiu `reformar` roupas recebidas por meio de doações. As peças customizadas passaram a ser vendidas no brechó Bré Art, cujo dinheiro arrecadado ajuda a sustentar alguns alunos bolsistas, além de instituições não governamentais.

`Os alunos criaram nome, marca, logotipo, embalagem e agora estão aprendendo a fazer balanço. Possibilitamos, de forma lúdica, que os alunos desenvolvam habilidades pessoais – como iniciativa, planejamento e persistência – trabalho em equipe, comunicação e negociação`, afirma a coordenadora do horário integral do Colégio CEAT, Yvana Tomsic.

Outro colégio no Rio de Janeiro que incentiva o empreendedorismo é o Mopi. Depois de realizar uma oficina de negócios em parceria com a Escola de Empreendedorismo Zeltzer, alunos de 14 anos a 18 anos criaram um negócio de doces finos para arrecadar dinheiro para as festas de formatura. `Empreendedorismo é uma forma de amadurecer o jovem. Sua principal característica é a inovação e os jovens estão cada vez mais atentos`, diz a coordenadora de marketing e comunicação do Mopi Tijuca, Rafaella Nóbrega Cunto Ancora.

Atitude empreendedora

Para a sócia da Escola de Empreendedorismo Zeltzer, Carla Zeltzer, ambientes que oferecem atitude empreendedora às crianças têm atividades de experimentação – onde erros são interpretados como oportunidades de melhoria e espaço de aprendizagem – e desafios no lugar de atividades prontas. Esses ambientes também propiciam a realização de atividades abertas de forma que as crianças tomem decisões; incentivam a criatividade; permitem o entendimento e o desenvolvimento de habilidades empreendedoras e introduzem o conceito de oportunidade.

É o que o Santander tem procurado oferecer com o Projeto Escola Brasil, programa de voluntariado que busca contribuir para a melhoria da qualidade da escola pública de educação básica. Segundo o voluntário e gerente comercial da financeira Santander, Carlos Frederico Pinto, um dos programas do Projeto é a Gincana Empreendedora, que introduz, de forma lúdica, aos alunos do 8º e 9º anos do Ensino Fundamental e 1º e 2º anos do Ensino Médio os conceitos do empreendedorismo relacionados ao emprego, trabalho e geração de renda.

Integrando esse programa, alunos do 8º e 9º anos do Ensino Fundamental da Escola Oswaldo Teixeira, em Quintino (RJ), desenvolveram brinquedos a partir de materiais recicláveis, cuja venda arrecadou alimentos para uma igreja local. `A gincana empreendedora pretende despertar nos alunos as possibilidades do mundo profissional, abrindo processos para que eles possam buscar oportunidades, acreditando quer é possível protagonizar seus projetos profissionais, gerar melhorias para suas vidas pessoas e de suas comunidades. A criança que cresce empreendedora acredita que, com saídas às vezes simples, pode mudar a sua realidade empreendendo`, afirma o voluntário.

Foco e oportunidade

Ronaldo Gonçalves Cortes Neto, de 16 anos, também optou por uma saída `simples`. Ao comprar um longboard por R$ 150 na Galeria do Rock, em São Paulo, o jovem percebeu que poderia, facilmente, revender o produto por um preço bem maior. Anunciou em seu perfil pessoal no facebook e, em menos de 24 horas, já recuperava o dobro do seu investimento. Logo, ele tratou de negociar com o dono da loja novo patamar de desconto para a compra de um maior volume de longboards e o sucesso foi tão grande que Neto teve de criar um perfil só para vendas na rede social – que em menos de dois meses agrupou 1,2 mil pessoas – e agora ele já sonha com loja própria.

`Já até comprei uma moto com o negócio e meu irmão, de 27 anos, quer entrar no negócio. Ele vai vender o carro para montarmos uma loja. Eu perco muitas vendas por não ter ponto fixo para mostrar o produto`, diz o estudante que já até definiu o nome da loja: Gonçalves Boards. Neto diz que a veia empreendedora vem de família: `meu pai teve uma loja de carros antigos e, desde pequeno, eu o acompanhava fazendo as negociações. Hoje, tenho minhas próprias ideias. Já penso em trazer produtos novos do exterior`, diz.

Talvez Neto não saiba que muitas marcas começaram assim, como a Chilli Beans. Seu fundador, Caito Maia, começou sua trajetória de sucesso aos 20 e poucos anos trazendo óculos de sol dos Estados Unidos na mala. Segundo a consultoria Rizzo Franchise, o número de jovens com menos de 30 anos interessados em comprar uma franquia quadruplicou em cinco anos, para 411,2 mil no ano passado. Quase um quarto dos franqueados tinham até 30 anos em 2011.

Eles cresceram

São vários os exemplos de empreendedorismo que começaram na juventude. Só na Junior Achievement – maior e mais antiga organização de educação prática em negócios, economia e empreendedorismo do mundo -, jovens de até 16 anos, que há duas décadas passaram por programas como o Miniempresa, hoje já são donos do próprio negócio. É o caso de Marcelo Nonohay, sócio da MGN Consultoria e do Pastifício Primo, fábrica artesanal de massas, molhos e antepastos. No 2º ano do Ensino Médio, ele desenvolveu com seus colegas uma miniempresa de bombons recheados de leite condensado.

`Tivemos excelentes resultados de vendas. Lembro que a rentabilidade das nossas ações superou os 120% em apenas 15 semanas. Participar do miniempresa teve peso preponderante para a minha escolha de cursar administração com ênfase em marketing`, revela.

Com o Pastifício Primo, os resultados também surpreenderam. Segundo Nonohay, em pouco mais de dois anos foram abertas três unidades próprias e uma franquia em São Paulo. A segunda franquia, diz, será aberta até o final do ano. E o empreendedor de 34 anos já pensa em outros negócios: `as oportunidades que o mercado nos apresenta são infinitas. Com certeza, pretendo ter outros negócios`, afirma.

Ricardo Schmitt também integrou esse mesmo projeto há exatos 18 anos e hoje é diretor e fundador da StoneCapital Investimentos, empresa do Sul do País que atua na assessoria de empresários em processos envolvendo fusões e aquisições de empresas, criação de joint-ventures e alianças estratégicas.

`Há pouco mais de um ano, a Stone já nasceu comprando outra empresa do mesmo setor. Agora, estamos perto de assinarmos um contrato de joint-venture com uma empresa especializada na área de wealth management (gestão de patrimônio), o que significará um primeiro passo para um futuro banco de investimentos`, informa.

Outro ex-participante do programa Miniempresa que seguiu o caminho do empreendedorismo é Brazz Mattos, de 23 anos. Seis anos antes, ainda no Ensino Médio, ele e outros colegas desenvolveram um identificador de dinheiro falso portátil, vindo a participar até da Brasiltec, maior feira de tecnologia da América Latina. Mais de 700 unidades foram vendidas, mesmo após o término do programa. Hoje, Mattos é fundador da empresa Bm Vix Informática, que presta serviços de informática para empresas. `Pretendo, ainda, abrir uma academia de dança`, anuncia.

Depois de ter participado, aos 16 anos, desse programa – produzindo velas decorativas no laboratório de química do Colégio Anchieta (Porto Alegre) -, Pedro Gastal, de 34 anos, também pensa em ter seu negócio próprio na área de serviços de conteúdo nos ambientes online e mobile. Hoje, Gastal mora em Londres e trabalha na Expedia, empresa que, segundo ele, atua em um mercado altamente competitivo e, por isso, exige um espírito empreendedor para rápidas adaptações das práticas de marketing.

`Aos 11 anos, junto com meu vizinho, montei uma lojinha no meu quarto. Vendíamos para os outros vizinhos do condomínio itens que não tinham mais utilidade para nós. Mas o carro-chefe do nosso armazém infantil eram os brigadeiros que produzíamos em casa. Acredito que, hoje, os jovens brasileiros possuam plena oportunidade para desenvolver seu espírito empreendedor. E isto está começando cada vez mais cedo`, considera.

A caminho do êxito

Segundo a Junior Achievement, mais de 2,6 milhões de alunos já passaram por programas da empresa. Neste ano, em convênio com o Sebrae, a Junior Achievement lançou o Prêmio Miniempresa, que selecionará em todos os estados do Brasil as dez melhores miniempresas para uma competição nacional e posterior premiação dos três primeiros colocados, em evento a ser realizado em dezembro em Brasília (DF).

`Há a necessidade, cada vez maior, de preparar os alunos para enfrentar um novo mercado de trabalho, onde a flexibilidade e a capacidade de iniciativa e adaptação às mudanças são fundamentais para o êxito profissional`, afirma a analista da Unidade de Capacitação Empresarial do Sebrae, Flávia Azevedo Fernandes.

Para a analista, a sociedade contemporânea exige pessoas empreendedoras, autônomas, com competências múltiplas, que saibam trabalhar em equipe, tenham capacidade de aprender e adaptar-se a situações novas e complexas, de enfrentarem novos desafios e promoverem transformações.

`Em decorrência dessa realidade, a educação empreendedora passou a ocupar posição estratégica no campo econômico e social. É preciso aprender sobre empreendedorismo`, observa.

O Sebrae Nacional também trabalha com o projeto Educação Empreendedora, que oferece diversas ações de fomento ao empreendedorismo no Ensino Fundamental, como o Curso Jovens Empreendedores Primeiros Passos (JEPP), e no Ensino Médio, como o Projeto Despertar e a Formação Jovens Empreendedores. Mais de 340 mil alunos já foram atendidos por esses programas do Sebrae.

`Estudos apontam que alunos que se engajam em atividades que ultrapassam a presença em sala de aula, sentem-se mais otimistas em relação ao futuro profissional, além de possuírem planos de carreira melhor estruturados e maior confiança em sua competência profissional Ou seja: há demanda por novos processos de ensino-aprendizagem`, finaliza.

`Ambientes que oferecem atitude empreendedora às crianças têm atividades de experimentação`
Carla Zeltzer, sócia da Escola de Empreendedorismo Zeltzer

`Meu pai teve uma loja de carros antigos e, desde pequeno, eu o acompanhava fazendo as negociações. Hoje, tenho minhas próprias ideias. Já penso em trazer produtos novos do exterior`
Ronaldo Gonçalves Cortes Neto, jovem empreendedor

`Estudos apontam que alunos que se engajam em atividades que ultrapassam a presença em sala de aula, sentem-se mais otimistas em relação ao futuro profissional` Flávia Azevedo Fernandes, analista da Unidade de Capacitação Empresarial do Sebrae”

 

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