A paixão movimenta o mercado

Matéria reproduzida da revista Franquia Negócios – Edição 45

Por Gerson Genaro

Ao movimentar mais de R$ 100 bilhões por ano, era natural que o franchising brasileiro despertasse a cobiça de grandes grupos econômicos interessados em ter uma participação no segmento que mais cresce no Brasil há mais de uma década além dos 20% anualmente. Os bancos de investimentos decidiram elevar sua exposição na área com a compra de conhecidas franquias e mais recentemente tradicionais `holdings` de grupos que já atuam no franchising também têm aumentado a compra de novas marcas para aproveitar as sinergias operacionais. Resultado: a franquia virou negócio de gente grande que atrai gestores e executivos de outros segmentos.

O forte interesse dos jovens que participaram das últimas feiras promovidas pela Associação Brasileira de Franchising (ABF) comprova estar em curso uma profunda mudança no perfil dos novos entrantes no sistema de franquias. O setor atrai agora profissionais bem-sucedidos em outras áreas, como mercado financeiro, indústria e comércio. A qualidade profissional do franchising evolui de forma consistente com a renovação provocada pelos novos entrantes. Independentemente da qualidade profissional  dos que chegam, o próprio setor faz um trabalho intenso no sentido de conferir maior qualificação.

A sofisticação de interesses também favorece o surgimento de uma nova elite executiva mais técnica, tanto do lado dos franqueadores como na ponta dos novos entrantes no sistema, os franqueados. O grau de informação econômica, financeira e gerencial também é mais elevado. Hoje é comum os candidatos a comprarem franquias discutirem termos mais técnicos, como o retorno do investimento em anos (ROI) previsto pela empresa. Ou o planejamento estratégico para expansão sustentável, sem endividamento.

Com a maior disseminação das características do setor, o surgimento de cursos de formação avançada `MBA` e a entrada do franchising na grade de algumas universidade, o grau de informação dos participantes `é dez vezes superior ao que tínhamos na década passada`, estima Camargo.

`Na ABF, estamos na quinta turma de MBA. Nas últimas três formamos 90 profissionais, inclusive alguns investidores. Tivemos ainda um aumento significativo no número de cursos na ABF, como introdução ao mercado de franquias. A cada mês lota mais e neste ano teremos mais de 800 alunos. Os cursos são feitos também em outras praças, como Porto Alegre e Minas Gerais. Temos ainda o curso avançado de franchising, para os que já possuem empresa ou franqueados múltiplos.

No primeiro semestre formamos 80 alunos. Temos ainda enorme volume de visitantes ao site da ABF, para atualização dos interessados, com mais de 250 mil visitas mês com 33 minutos de tempo médio de permanência, o que indica que muitos fazem pesquisas sobre oportunidades de negócios, assuntos técnicos, eventos etc`

Portanto, avalia Camargo, deveremos ter um salto na qualificação profissional por conta do crescimento do ensino voltado para o setor. Além do MBA da ABF existem cursos na FGV, ESPM, FIA e outras universidades que adicionaram o curso de franquia em sua grade. Também a ABF tem feito parcerias com universidades para aumentar a informação.

`Existe um maior preparo em decorrência da própria evolução do sistema. Hoje temos, por exemplo, os franqueados múltiplos, que optam por adquirir franquias de outros segmentos, por já ter um conhecimento avançado sobre como funciona o mercado, se acha capaz de ter outras unidades em diversos setores e cuidar de mais negócios`, aponta o diretor da ABF.

`Os bancos de investimentos também estão de olho no setor com a compra de participação em diversas franquias. Temos ainda as `holdings` ou grupos fortes de franqueados que também querem comprar outras marcas. Uma prova do interesse foi a grande presença de gestores financeiros que fizeram visitação à última feira anual da ABF para verificar possibilidade de compra de novas empresas. São várias tendência simultâneas que tornam o setor bastante aquecido.Termos bancos de investimentos, holdings, investidores privados que tentam aumentar sua participação no mercado`, acrescenta Camargo.

A tendência de executivos de outros setores entrarem no setor não é nova. Na verdade, intensificou-se com a onda de reestruturação corporativa conhecida como downsizing – diminuição dos cargos hierárquicos – na década de oitenta e a `reengenharia` – substituição de processos antigos e adoção de novos modelos para criar os produtos e serviços que agregam valor aos clientes. Houve um enxugamento em massa de pessoal, de forma indiscriminada. Parte veio parar no varejo e no franchising.

`A primeira leva ocorreu com o ingresso de vários engenheiros, administradores e executivos da indústria. Agora também ocorre a transferência de executivos dos setores industriais, que sofre forte encolhimento, e da área financeira, por ser alternativa rentável. Como muitos possuem apenas conhecimento da antiga ocupação, sem saber como atuar e empreender no varejo, optam por uma franquia, que dá maior segurança`, explica Ricardo Camargo, diretor executivo da ABF.

A força crescente dos jovens

`O perfil do franqueado mudou nos últimos anos. Eles são mais jovens e mais confiantes em seus talentos pessoais. Conforme mostram as pesquisas de mercado, a faixa etária de quem se interessa por uma franquia passou de 40 a 55 anos para 25 a 45 anos, o que demonstra claramente o desejo de empreender do brasileiro. Além disso, o atual franqueado possui mais conhecimento sobre o sistema franchising.  Ele é profissional e busca um negócio com o qual tenha afinidade e que possa ter resultados.  Mas sabe que isso depende de seu trabalho à frente da operação`, detalha Fátima Rocha, presidente da ABF-Rio.

Em 2006, eram 90,8 mil jovens, com idade inferior a 30 anos, interessados em adquirir uma franquia. Em 2011, este número mais que quadruplicou para 411,2 mil, ou salto de 456%. A evolução anual do franqueado no Brasil mostra que também os jovens têm vocação empreendedora. Em 2011 (fechamento da pesquisa em março de 2012) tínhamos 136.342 franqueados. Deste total,  23,25% eram jovens até 30 anos (31.700). O maior volume está na faixa entre 35/45 anos, cerca de 48,2 mil franqueados (35,3%). Entre 45/55 eram 26,5 mil (19,4%) e entre 31/35, 26,3 mil (19,3%), segundo levantamento feito anualmente pela Rizzo Franchise.

Entre os setores preferidos pelos jovens – homens até 25 anos – estão fast-food, entretenimento, alimentação e varejo, e – mulheres – hotelaria/turismo, móveis/decoração, livros/papelaria. Já na faixa 26/30 anos – homens – automotivo, esportes, fast-food e – mulheres – educação/treinamento, entretenimento e fast-food. Entre 31/35 a preferência é pelos setores de serviços / material de construção, educação / treinamento e fast-food.

O capital que eles possuem para investir numa franquia varia até R$ 80 mil, 38% dos jovens até 25 anos e 34% para 26/30 anos. Já entre R$ 81 mil e R$ 120 mil encontramos 39% dos jovens até 25 anos e 28% entre 26/30 anos. Para somas mais elevadas, entre R$ 121 mil e R$ 200 mil temos 13% dos jovens até 25 anos e 26% entre 26/30.

Somos empreendedores por natureza

`Acredito que a mudança de perfil dos novos interessados por franquias seja pelo espírito empreendedor de uma nova geração que esta cansada do `mundo corporativo`, que anseia ser independente, em ter seu próprio negócio e que está disposta a arriscar e ser muito bem-sucedida mesmo que em uma área de atuação diferente de sua formação acadêmica. É paixão que move os jovens. Como o mercado brasileiro está aquecido, optei por investir em uma franquia relacionada a alimentação, pois mesmo na crise as pessoas precisam comer. Para quem não tem a experiência no comércio, a franquia é uma ótima opção por você contar com toda a estrutura fornecida pelo franqueador. Acredito que o ideal seja montar um mix de franquias, não apostar em apenas uma por conta da sazonalidade do mercado, assim o risco que já é baixo torna-se ainda menor`,  relata a jovem Carol Marins, franqueada da BROU`NE no Shopping Market Place.

O primeiro passo é definir qual segmento o empreendedor mais se identifica e depois buscar informações, ensina Robson Almeida, franqueado da unidade da Mil Milkshakes em Várzea Grande (MT).

`Estudei o mercado de franquias por dois anos, os segmentos que mais crescem e suas perspectivas a longo prazo, selecionei as que me interessavam dentro do capital que eu tinha para investir. Em seguida iniciei as negociações, as análises dos contratos até definir a que me pareceu melhor. Tenho formação  em administração  e MBA  em gestão estratégica e empresarial e isso também facilitou a fazer um plano de negócio. O resultado vem de um bom planejamento e persistência, conhecimento sobre o negócio e bom relacionamento com o franqueador`, acrescenta Robson.

`Minhas expectativas são boas, vejo que é um mercado que tem crescido muito. Comprei duas unidades no período de  seis meses, e planejo adquirir outras nos próximos anos. A maior participação dos jovens no sistema  se deve  ao perfil empreendedor dos brasileiros. De fato, a franquia possibilita ter a diversificação de renda para os investidores que procuram isso. Para quem explora o negócio  se faz necessário um gerenciamento de pessoas, mas confesso que mão de obra qualificada se torna nosso o maior desafio para esse tipo de gestão`, ressalva Almeida.

Fundada em 1992, a marca popularizou o milkshake ao estruturar lojas de rua. São mais de 40 lojas por todo o país e 101 sabores.

A qualidade não depende apenas dos novos franqueados, mas da profundidade do treinamento oferecido pelos franqueadores responsáveis para habilitar o candidato a profissionalmente operar a franquia. `Por isso, é muito importante que franqueadores busquem candidatos que tenham habilidades para se adequar ao processo e à operação de cada negócio. Do contrário, o que teremos é estilos personalizados de gerenciamento para cada negócio numa mesma franquia e, por conseqüência, sua descaracterização. Por exemplo – o McDonald`s não admite candidatos que possuam experiência anterior em alimentação e/ou restaurantes. Quando alguém decide entrar no sistema irá comprar, na verdade, a experiência de um franqueador`, avalia o consultor Marcus Rizzo.

Existe ainda a tendência de grandes grupos econômicos e fundos de investimentos que buscam diversificação de negócios,  assim como sociedade entre vários amigos. O setor atrai pessoas com um outro perfil no segmento de franquias e alteram a relação entre franqueado versus franqueador e também a maneira como estes operam suas unidades, sem a presença do dono, porém com uma gestão mais profissional e menos passional.

`Estes grupos, mais especificamente private equity, têm entrado na franqueadora e não na operação da franquia. Como é o caso da Tarpon na Arezzo, Hering e agora Morena Rosa, ou Pactual na Farmais ou Pátria na Casa do Pão de Queijo, Fotoptica e Casa Cor. Mas paixão é o nome deste negócio – franquia. Nada substitui a paixão de um franqueado à frente de um negócio comparado com um gerente que não se envolve. O grande mérito da franquia é ter um dono a sua frente, apaixonado e totalmente envolvido com o negócio e com a marca`, ressalta Rizzo.

É fundamental para quem planeja montar um negócio estar muito bem preparado principalmente para avaliar o mercado e escolher qual ramo investir, diz Carol Marins,  franqueada da BROU`NE.
`O dono tem que conhecer muito bem a operação para ai sim poder sair da linha de frente do negócio e se tornar somente o gestor, ou conseguir contratar alguém que já venha do ramo e que tenha vasta experiência, mas para o pequeno investidor é mais complicado, pois a decisão colabora para o aumento dos custos operacionais`.

Em paralelo, acontece o surgimento dos franqueados investidores, que começam a olhar cada vez mais o sistema de franquias como um investimento de baixo risco e bom retorno financeiro, se comparado com as aplicações financeiras tradicionais com seus rendimentos cada vez mais limitados, uma franquia (ou um conjunto delas) pode ser uma boa maneira de gerar rentabilidade financeira acima das aplicações tradicionais.

“Este é um dos maiores problemas das franquias que admitem este perfil. Investidores querem que o capital trabalhe e franquia exige trabalho`, ressalva Rizzo.

`Acredito que o ideal seja montar um mix de franquias, não apostar em apenas uma por conta da sazonalidade do mercado, assim o risco que já é baixo torna-se ainda menor` Carol Marins, franqueada da BROU`NE no Shopping Market Place.

 

Veja alguns artigos interessantes do Portal do Franchising, clique e te levaremos para lá: