Por que o crédito não chega na ponta?

Matéria reproduzida pela revista Franquia & Negócios – Edição 92

Por Fernando Tardioli*

 

A pandemia da Covid-19 exigiu o fechamento dos shoppings e do comércio considerado não essencial por alguns meses. Como não poderia deixar de ser, a medida trouxe um impacto significativo no franchising brasileiro – afetando franqueados e franqueadoras.

Um dos caminhos para minimizar este impacto passa pelo acesso a linhas de crédito com carência para início dos pagamentos, prazos mais estendidos e juros reduzidos.

Uma pesquisa promovida pela ABF mostrou que as redes de franquia associadas à entidade têm uma demanda de crédito de aproximadamente R$ 3,7 bilhões. Em relação aos franqueados, os dados colhidos indicam que a demanda média de crédito é de cerca de R$ 93 mil por unidade franqueada.

Diante deste cenário, a entidade vem tentando abrir caminhos por meio do diálogo constante com bancos públicos e privados, além do próprio Banco Central e com o Governo Federal. Mas fica a pergunta: por que é tão difícil obter este crédito?

Há muito fatores que dificultam este acesso. Um deles é a burocracia. É óbvio que os bancos precisam realizar a análise de crédito, mas essa etapa, invariavelmente, esbarra em questões como garantia e dificuldades de adequação de seus sistemas às condições de cada programa.

Mesmo sabendo que, em se tratando de franquias, a taxa de mortalidade das empresas  é de apenas 5%, portanto, quase cinco vezes menor do que a média de 23% das empresas que fecham as portas antes de completar dois anos, é uma dificuldade conseguir crédito com taxas razoáveis

Outro fator é o desinteresse de algumas instituições em fazer repasses de crédito nas condições estabelecidas por programas como o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). Há bancos que têm seus próprios produtos, com taxas maiores, e canalizam seus esforços para vendê-los.

O Brasil, há alguns anos, luta para reaquecer sua economia e gerar mais empregos. Este desafio, agora com a pandemia, é ainda maior – e o franchising pode colaborar muito neste sentido.

Por um lado, o franchising sempre foi um caminho para quem deseja empreender ou mesmo recomeçar uma atividade profissional após o desligamento do mundo corporativo.

Por outro, há tempos o setor se firmou como um segmento consistente, com faturamento anual superior a R$ 186 bilhões – que corresponde a aproximadamente 2,7% do PIB nacional – e que emprega diretamente mais de 1,3 milhão de trabalhadores. São razões que mostram que, receber um olhar especial – que facilite o acesso de franqueadoras e franqueados ao crédito – é um pleito não só justo, mas necessário.


*Fernando Tardioli é Diretor Jurídico da Associação Brasileira de Franchising (ABF), do World Franchise Council (WFC), da Federação Ibero-Americana de Franquias (FIAF) e sócio do escritório Tardioli Lima Advogados.