Unir para crescer

fusões e aquisições

Apesar da crise provocada pela Covid-19, as operações de fusões e aquisições têm atraído as empresas, inclusive do franchising

Forte estratégia de crescimento para as empresas, as operações de fusões e aquisições atingiram um patamar importante em 2020, mesmo com a pandemia de coronavírus. Segundo o relatório anual M&A Report, produzido pela consultoria de gestão Bain & Company, foram realizadas mais de 28,5 mil transações no mundo todo a maioria no segundo semestre, que geraram um volume de US$ 2,8 trilhões.

No Brasil, pelos dados da consultoria empresarial PwC, foram anunciadas 1.038 fusões e aquisições, um volume 48% superior à média do mesmo período dos últimos cinco anos (701) e 14% maior do que no ano anterior (912). Os setores que mais atraíram a atenção de investidores no período foram TI, serviços auxiliares, serviços de saúde, serviços públicos e financeiro.

Apesar do levantamento não especificar as negociações ocorridas no franchising, muitas foram registradas, o que só corrobora a força e a resiliência das redes nacionais. Um exemplo foi a único, em outubro de 2020, da Arezzo&Co – grupo que reúne as marcas Arezzo, Schutz, Anacapri, Alexandre Birman, Fiever, Alme e Vans – com a Reserva, dona de seis marcas: a própria Reserva, Reserva Mini, Oficina Reserva, Reserva Go, EVA e INK. O acordo foi avaliado em R$ 715 milhões.

Em 2019, colocamos nossos pés em novos mercados, com a distribuição exclusiva da marca Vans em território brasileiro. No ano passado, aprendemos, vibramos e nos sentimos confiantes para dar mais um passo. A operação de incorporação da Reserva tem como grande motivação o capital humano, a força de sua marca e o potencial para expandir muito além de seu core, algo que será fundamental na consolidação da nossa plataforma de moda. Criaremos, sem dúvida, um grande ecossistema de negócios, disse o CEO da Arezzo&Co, Alexandre Birman, em comunicado enviado à imprensa.

Outra transação envolvendo franquias ocorrida no ano passado foi a sociedade entre a Além do Olhar – Ateliê de Sobrancelhas, rede da área de estética e beleza, com o Grupo Kalaes, que tem em seu portfólio as marcas Instituto Ana Hickmann, Maislaser by Ana Hickmann e Odonto Special, e a empresaria e apresentadora Ana Hickmann. Os valores não foram informados.

Começamos a paquera em margo e oficializamos o negscio em agosto, apesar da pandemia, conta o presidente da holding multisetorial, Sidney Eduardo Kalaes. De acordo com ele, dois pontos principais chamaram a atenção para a marca. O primeiro foi o carinho com que ela foi desenhada. Ali tem história, tem vida e vemos o cuidado com cada detalhe. O segundo i o seu potencial de crescimento, por ser uma empresa inovadora e que traz uma proposta completamente diferente do que já existe hoje no mercado.

Criada em 2014 pela empresaria Rose Lourenço, a Além do Olhar, até o segundo semestre do ano passado, tinha apenas sete unidades em funcionamento, seis em Goiânia (Goiás) e uma em Rondonópolis (Mato Grosso). Após a parceria, foram comercializadas 30 unidades em sete meses. O novo plano de expansão prevê a abertura de 50 operações até o final de 2021, totalizando 300 em um prazo de cinco anos.

Comecei o negócio e logo vendi as primeiras unidades, mas todas na minha região, que era onde eu conseguir dar suporte. Tinha vontade de abrir em outros estados, crescer, mas me faltava estrutura. Durante dois anos fiquei paralisada, até que conheci o Sidney. Firmar a sociedade com ele e a Ana me possibilitou fazer a expansão de forma organizada e agregou valor ` minha marca, justamente o que eu precisava, relata a fundadora.

Mais um movimento de fusco e aquisição no franchising ocorrido em 2020 foi a venda de 33% do Instituto Gourmet, rede de ensino profissionalizante em gastronomia, para a holding SMZTO, formada por outras 13 marcas, entre elas Casa X, Instituto Embelleze, Espaçolaser e L’Entrecote de Paris. Na visão do sócio do Instituto Gourmet, Glaucio Athayde, essa estratégia é o melhor caminho para se atingir o sucesso.

Claro que, para isso, tem que avaliar muito bem quem será o parceiro. O novo sócio tem que gerar valor para o crescimento e o desenvolvimento da companhia, como foi no nosso caso. Entendemos que, com a experiência de quem já criou e desenvolveu varias marcas, chegaríamos muito mais rápido aos nossos objetivos. Além de mais visibilidade, credibilidade e velocidade de expansão, teríamos um processo de governança e profissionalização muito grande, destaca o executivo.

Em 2020, a companhia obteve faturamento de R$ 63 milhões, alta de 40% em relação ano anterior. Athayde pontua que, além de não fechar nenhuma unidade, 71 novas foram comercializadas. Para este ano, a meta é atingir R$ 100 milhões em receita e vender mais de 80 operações. Em dois anos, teremos 300 em todos os estados brasileiros.

 

Mercado em alta

Este ano, os acordos de fusco e aquisição seguem em alta, com o apetite renovado de investidores após a desaceleração causada pela pandemia em algumas regiões do mundo, sobretudo na América do Norte. Para se ter uma ideia, dados compilados pela Bloomberg apontam que essas transações atingiram US$ 1,1 trilhão no primeiro trimestre.

No Brasil, mesmo com a Covid-19 fora de controle, movimentos importantes continuam acontecendo no franchising. Um dos principais foi anunciado no dia 20 de abril: a compra de 70% das agues do Grupo Uni.co, dono das marcas Puket, Imaginarium, MinD e Lovebrands, pelo Universo Americanas.

Segundo a gigante do varejo nacional, que tem uma forte plataforma digital com as marcas Americanas, Submarino, Shoptime e Sou Barato, cerca de 1,7 mil lojas em todo o País e mais de 46 milhões de clientes ativos, a negociação faz parte da estratégia de crescimento inorgânico, baseada na aquisição de novos negócios e marcas que possam ser potencializados pelos seus ativos.

Do ponto de vista do Grupo Uni.co, atualmente com 440 lojas (todas franquias), mais de 2,8 mil pontos de vendas multimarcas e canais digitais, o acordo se deve ` oportunidade de se tornar uma nova vertical de negócios do Universo Americanas, com potencial muito maior para o crescimento e longevidade do negócio.

Também em abril o Grupo Soma, dono de marcas como Farm, Animale, Maria Filó e Cris Barros, comprou por R$ 5,1 bilhões a Cia.Hering, detentora da Hering Store, Hering Kids  juntas, elas têm mais de 760 unidades  e Dzarm.

Na ocasião da negociação, as empresas salientaram que as operações terão como pilares centrais a utilização e difusão de uma cultura digital, transferência de know-how entre pesquisa e desenvolvimento das marcas, fortalecimento da cadeia de fornecimento, expertise em franquias sendo difundida para algumas marcas do grupo e potenciais ganhos de eficiência tributaria e operacional.

 

Transações devem aumentar no franchising

Sobreviver, reestruturar, sair da crise, aumentar a lucratividade, ganhar escala e força, expandir, gerir com mais eficiência, manter a competitividade, aumentar o portfólio, adquirir conhecimento ou tecnologia, melhorar ou ampliar os canais de distribuição. Essas são apenas algumas das razões que levam as empresas a comprar ou se unir a outras.

No fundo, o que elas buscam é crescimento. Para isso acontecer, a soma de esforços e competências e a otimização de recursos são fundamentais, ainda mais no franchising, com tantas marcas operando. Acredito que veremos cada vez mais movimentos assim daqui para a frente, e não só de fusões e aquisições, mas também de cooperações, associações, alianças e acordos operacionais, aponta o fundador e presidente do Grupo Cherto, Marcelo Cherto.

Para o especialista, a pandemia evidenciou o quanto as redes, em especial as pequenas, precisam se profissionalizar e se preparar para as dificuldades. Nos últimos meses, se deu bem quem estava capitalizado e estruturado e tinha feito investimentos em tecnologia. Isso nos mostrou que muitas das franquias nacionais precisam evoluir e, em alguns casos, o único jeito de fazer isso i se juntando com outras.

 

OPERAÇÃO EXIGE CUIDADOS

Ainda que as operações de fusões e aquisições sejam consideradas positivas, o seu sucesso depende de uma série de fatores. A sócia do escritório Novoa Prado Advogados, Thais Kurita, aponta que os principais são saber qual é o real propósito da ação, passar pelo processo de valuation (mensuração da marca) e auditoria, estar com a documentação necessária em dia e definir como será feita a transição.

Mais alguns pontos que também contam muito são a cultura da empresa, que deve sempre ser respeitada, e a transparência com que a negociação será repassada para a rede. Tudo precisa ficar bem claro para que o negócio seja realmente vantajoso para as duas partes e para evitar ruídos no futuro, completa a advogada.