Franquia enfrenta interesse reduzido longe das capitais

Jornal Valor Econômico – 27/06 – Rosangela Capozzoli
 
O mercado de franquias vem crescendo tanto que agora ameaça atropelar o próprio negócio. Enquanto o setor aumenta em ofertas, faltam franqueados para tocar as lojas, especialmente nos shopping centers. A dificuldade em alocar investidores para dentro das lojas de franquias se acentuou com a migração de muitos empreendimentos para regiões mais distantes, onde é maior a escassez de interessados com dinheiro para investir.
 
Outros motivos são a falta de estrutura por parte das redes, o perfil desalinhado do franqueado diante do negócio e a falta de parceria com os próprios empreendedores dos shoppings. Uma das soluções tem sido a promoção de eventos que antecedem a abertura dos shoppings, onde as franquias são divulgadas e comercializadas. Só em 2012, a Associação Brasileira de Franchising (ABF) realizou 20 desses eventos com a participação de mais de 50 shoppings.
 
“A projeção é que neste ano dez grandes grupos empreendedores de shoppings participem de uma rodada de cerca de 25 feiras”, afirma Ricardo Camargo, diretor executivo da ABF.
 
Na sua avaliação, “a escassez de lojistas começou hã cerca de três anos e se torna cada vez mais acentuada”. “A principal razão da falta de investidor é o fato de os shoppings centers terem adotado uma política de diversificação de seus investimentos em direção ao interior do país, nas segunda e terceira cidades”, afirma.
 
É natural que, nesses locais, o número de investidores seja bem menor que na região Sudeste, dificultando a ampliação da ãrea de franchising. É para minimizar o impacto que a ABF traçou estratégias para despertar o interesse desses investidores. “Assim que o empreendimento é lançado, ou até durante a obra, tomamos a frente de fazer eventos nos locais, com o intuito de atrair interessados para as franquias”, diz.
 
Em meados de junho, Camargo capitaneou um evento nesses moldes durante a expansão do Shopping Porto Velho, em Rondônia. “Temos ido a varias partes do Brasil, divulgando as particularidades da franquia”, diz. Segundo o diretor da ABF, esse tipo de evento assemelha-se a uma feira, onde são montados estandes de negócios, com participação de associações comerciais e empresários regionais, tornando mais fãcil encontrar pessoas interessadas em se tornar franqueadas.
 
A empresa Divino Fogão, uma das maiores franquias no segmento de comida brasileira, é um exemplo no mercado de franchising. Hã quase três décadas o empresário Reinaldo Varela apostou todas as fichas na abertura do Restaurante São Paulo I, em frente ao Shopping Eldorado, em São Paulo. O negócio prosperou e Varela decidiu transforma-lo em uma rede. Alterou o nome para Divino Fogão e hã 20 anos ingressou no mercado de franquias. Assistiu a uma forte expansão que soma 139 lojas espalhadas pelo Brasil. Até o final de 2013 outras 22 lojas abrirão suas portas e para 2014 serão mais 40.
 
Porém o cenário já não é tão propício. A indústria de shopping teve um crescimento acelerado e junto com a expansão os custos se tornaram mais salgados para a aquisição de uma franquia. Hoje, o fundador da Divino Fogão está à caça de novos investidores e, para atraí-los, oferece empréstimos e parcerias. “Está difícil fechar negócios, principalmente, por falta de franqueado que não tem todo investimento. No meu caso, viabilizo o negócio concedendo 40% do valor total da loja para que o franqueado possa montar o ponto de venda ou entro como sócio alavancando o negócio”, conta. A franquia do Divino Fogão exige, em média, desembolso de R$ 600 mil. 
 
A expansão do setor de shoppings gera outras dificuldades, e nem sempre se trata de falta de recursos para injetar no negócio, observa Luis Stockler, sócio-diretor da Ba Stockler, uma consultoria na gestão de redes de franquias. “Não basta apenas ter capital. É preciso selecionar com rigor o franqueado. Uma boa seleção começa a partir de 150 a 200 candidatos para que um seja escolhido. Não adianta sair correndo vendendo franquias se a empresa não esta estruturada para atender. Quando falo de operações significa produtos e mão de obra”, diz. 
 
O especialista reforça a importância da “captura de pontos”, que deve ocorrer em paralelo. “Hoje a oferta de pontos é abundante, mas muitas vezes você tem o franqueado e ele não consegue estruturar sua operação a tempo da inauguração. Ou às vezes não há o franqueado, que é a terceira perna, que tem que andar junto”, ressalta.
 
Para não correr riscos os shoppings estão promovendo eventos com foco em franquia bem antes de sua inauguração. O Metropolitan Garden Shopping, localizado em Betim (MG), e que serã inaugurado no próximo dia 10, promoveu o “Franquia em foco”, em fevereiro, com apoio do Sebrae e da Câmara de Dirigentes Lojistas de Betim, com participação de empresários, empreendedores e investidores para mostrar a importância da franquia. “Se o shopping nâo toma essa iniciativa antes, em parceria com os franqueadores, o negócio não anda”, diz Stockler. 
 
Segundo ele, cerca de 95% das empresas que operam na praça de alimentação dos shoppings pertencem à rede de franquias. “Entre 50% e 55% das lojas âncoras são franqueadas. Em segmentos como moda, cerca de 70% das lojas são franqueadas”, diz. As franquias dentro dos shoppings crescem, em média, 10% ao ano, diz.
 
A administradora de shoppings AD Shopping tem como estratégia realizar pesquisas de mercado em busca de franquias. “A relação entre administradoras de shoppings e franquias é uma via de mão dupla. As administradoras buscam as franquias para fortalecer o mix com marcas consolidadas e as redes procuram os shoppings para lançar-se em uma nova praça ou ampliar sua presença em determinada região”, explica Flavia Tegão, coordenadora de marketing corporativo da AD Shopping.
 
Sérgio de Souza Carvalho Júnior, diretor de marketing da rede 5àsec, diz que os próprios shoppings se encarregam de contatar a franquia francesa para compor seu mix de lojas. “Os empreendedores nos procuram, pois já selamos acordos comerciais com eles e somos a primeira lavanderia a instalar nos shoppings. Temos preferência”, afirma o diretor que conta hoje com 400 lojas em todo Brasil.