Espaços alternativos dão novo ritmo ao mercado

Valor Econômico – Katia Simões – 29/08

Relatório global de pesquisa desenvolvido pela consultoria Jones Lang LaSalle em parceria com a International Council of Shopping Centers (ICSC) revela que o investimento anual no mercado imobiliário de varejo deverá atingir US$ 180 bilhões em todo o mundo até 2020. O Brasil, segundo o estudo, está entre os países em desenvolvimento que responderão por um quarto desses investimentos, ao lado de Argentina, Chile, China e índia. Nesse cenário, os shoppings centers ainda despontam como atores principais. Só para 2014 a expectativa é que sejam inaugurados 31 novos empreendimentos, o que ajudará o setor a crescer cerca de 8% em relação ao faturamento de 2013, que somou R$ 129,2 bilhões.

Entretanto, ao contrário dos últimos anos, os shoppings não terão de dividir a preferência dos varejistas apenas com os pontos comerciais de ruas ou com as galerias de serviço dos supermercados, que ganham a cada dia um novo perfil. Espaços compartilhados com postos de combustíveis, escolas e universidades, hospitais e condomínios comerciais e residenciais têm despontado como alternativas interessantes, em razão do menor custo do aluguel e ausência de luvas. Todavia, são os aeroportos que têm despertado maior interesse por parte do varejo, seja por redes independentes, seja pelas franquias.

Com a privatização, muitos aeroportos têm passado por reestruturação, criando um ambiente favorável às compras, com design moderno, amplas áreas, um bom mix de produtos e presença de muitas marcas estrangeiras, configurando o que o mercado passou a chamar de aeroshopping. A nova proposta de diversificação de canais já foi implantada em cerca de 17 aeroportos, entre eles os de Brasília, Campinas, Porto Alegre, Salvador, Maceió, Recife e Guarulhos. O Aeroporto Internacional de São Paulo, aliás, foi escolhido para entrada no país de redes internacionais de peso, como a americana Red Lobster, especializada em lagostas e frutos do mar, as Pipocas Garrett, o fast food CarFs Jr e o restaurante mexicano Jimmy’s Buffet Margaritoville.

Para atrair ainda mais varejistas, Guarulhos criou dentro da ãrea de embarque a GRU Avenue nome inspirado na Quinta Avenida de Nova York que abrigará 15 lojas de grife. Já abriram as portas Amsterdam Sauer, Kate Spade e Lacoste. Burberry, Empório Armani e Victoria’s Secret são aguardadas ainda para este ano.

Em 2013, os aeroportos brasileiros receberam 98,4 milhões de passageiros, de acordo com o Ministério do Turismo, destes 3G milhões apenas em Guarulhos.

“O grande fluxo de pessoas é o principal atrativo para o varejo, somado à possibilidade de dar maior visibilidade à marca não só entre os consumidores nacionais, mas também entre os estrangeiros”, avalia Marcos Hirai, especialista em expansão de redes de varejo e franquias.

Segundo o consultor, montar uma flagship em grandes aeroportos custa o mesmo que abrir a mesma loja na rua Oscar freire, em São Paulo, um dos metros quadrados mais caros do mundo. Engana-se quem acredita que os custos são mais enxutos, pelo contrário, os aluguéis em alguns casos são até quatro vezes maiores que a média dos shoppings.

Quem tem fôlego para bancar, porém, comemora. A loja do Aeroporto de Cumbica é a que registra maior volume de vendas da Pizza Hut no mundo, fatura, em média, R$ 2 milhões por mês. “Hoje, nosso plano de expansão está pautado apenas para esses locais, com a abertura de três novas lojas ainda este ano nos aeroportos de Congonhas, Natal e Manaus”, diz Joana Elury, diretora de marketing da rede no Brasil. “As vantagens são muito maiores que as desvantagens, mesmo com os custos mais altos. Mas, para obter retorno é preciso fazer algumas mudanças na operação, reduzindo o tamanho da loja para diminuir o investimento, e escolher o franqueado com muito critério”. As alterações que a executiva sinaliza estão diretamente ligadas ao cardápio. Nos aeroportos, a Pizza Hut introduziu o café da manhã, algumas bebidas alcoólicas no mix e sobremesas rápidas.

Essa também foi a receita adotada por Cairo Maschi, CEO da Baked Potato, uma das poucas redes de fast food composta 100% de lojas próprias. Há oito anos ele instalou a primeira unidade no Aeroporto de Congonhas. Há pouco mais de seis, outra no Aeroporto de Guarulhos e desde maio uma terceira, no Terminal 3 recém-inaugurado no mesmo aeroporto. “O maior desafio é operar 24 horas, porque há momentos que o fluxo cai consideravelmente. Da meia noite âs 5 horas da manhã as vendas são pífias, mas por contrato não fechamos as portas”, afirma Maschi. “Por outro lado, as vendas compensam. Em Cumbica, por exemplo, além dos turistas, contamos com cerca de 25 mil pessoas que trabalham ali, um volume superior a muitas cidades”.

O empresário observa, porém, que cada aeroporto tem um perfil diferente, o que exige um estudo ainda mais detalhado antes de abrir a loja. “fechamos uma operação em Brasília porque a praça de alimentação não era o lugar ideal. Ao contrário da maioria dos aeroportos, na capital federal 50% dos vôos são conexão. Assim, o fluxo está nas salas de embarque e desembarque”, ressalta. Com um faturamento estimado de R$ 82 milhões para 2014 e 30 anos de mercado, a Baked Potato soma G2 unidades, destas as instaladas em aeroportos encabeçam o ranking das líderes em vendas.

Para Mauro Johashi, diretor da BDO Consultoria, a oferta de pontos alternativos será cada vez maior nas capitais e grandes cidades, o desafio, entretanto, será escolher o que mais se adapta a cada tipo de negócio. “Um aluguel quatro vezes maior que um shopping convencional, por exemplo, pode comprometer a operação de uma rede que não tenha produtos e serviços muito bem afinados com o perfil de público, com o momento de compra”, declara. “É essencial calcular muito bem quanto a marca terá de retorno.”