É hora de começar a agir por conta própria

É hora de começar a agir por conta própria - Com a diminuição das oportunidades no mercado de trabalho, executivos demitidos estão adotando saídas alternativas

O administrador de empresas Humberto Cristofoletti, 47 anos, trabalhou por duas décadas na Brasil Kirin, com um intervalo em 2008, quando ele foi desligado e recontratado após cinco meses. “Foi um primeiro momento de reavaliação, que sinalizou a necessidade de pensar em mais opções”, diz. Quando deixou a gerência de marketing da empresa do setor de bebidas em abril do ano passado, ele já tinha um “plano B” em ação desde a demissão anterior. Hoje, Cristofoletti se divide entre dar aulas, manter o próprio negócio e abrir uma representação comercial.

Com a diminuição das oportunidades no mercado de trabalho, executivos demitidos estão adotando saídas alternativas, fora do meio corporativo. Segundo consultorias de carreira e outplacement – serviço de recolocação oferecido pela empresa após uma demissão – o número de profissionais que seguiram um caminho diferente do emprego tradicional após passar pelo processo dobrou desde o ano passado. Muitos estão apostando no “plano B” ou antecipando o planejamento que tinham para depois da aposentadoria.

Na Stato, a quantidade de executivos que optaram por abrir o próprio negócio ou atuar de forma autônoma como consultores ou professores, por exemplo, se manteve estável nos últimos dez anos, em aproximadamente 10%.
Desde o ano passado, porém, o índice chega a 20%. “No processo de outplacement, a pessoa não consegue apenas se recolocar no mesmo cargo, ela precisa se reconstruir”, diz Lucia Costa, diretora de transição de carreira da consultoria.

A vida de Cristofoletti tem passado, de fato, por uma transformação desde o ano passado. Quando percebeu que a empresa poderia promover cortes, no fim de 2013, ele começou um curso de gastronomia, que acabou trancado. O contato com a instituição de ensino, no entanto, levou a um convite, no início deste ano, para dar aulas de marketing e empreendedorismo. Desde 2008, ele tem um negócio próprio – começou com uma franquia de uma marca de acessórios femininos, e hoje tem uma loja de marca própria em Porto Feliz, cidade próxima da sua base em Itu, no Estado de São Paulo. Agora, também está abrindo uma representação comercial com um sócio.

Além de a situação econômica ter limitado as opções de recolocação, Cristofoletti percebeu no outplacement que não se sentia mais tão satisfeito trabalhando no mundo corporativo. “Durante o processo, senti que estava resistente à ideia de voltar para o mercado. Percebi que era uma oportunidade de ter um projeto que, embora não fosse menos trabalhoso, oferecesse mais flexibilidade”, diz.

Ele afirma que hoje sua jornada vai das 8h às 23h, mas considera a rotina menos desgastante. “Estou trabalhando mais fisicamente, mas o trabalho é psicologicamente mais leve. Há cobrança, mas é diferente de ter a pressão do chefe o tempo todo.”

Embora estivesse se preparando financeiramente para a possibilidade de ficar um período sem o salário, ainda assim ele sentiu um baque. “É preciso montar planilhas, ser mais rígido e fazer escolhas”, diz. Uma grande diferença é a perda do pacote de benefícios da empresa, que incluía plano de saúde e gastos como carro, gasolina e celular. “Quase enfartei quando fui fazer um pacote de pessoa física com o plano de saúde”, brinca. Hoje, Cristofoletti confessa que ficaria balançado a retornar ao mercado no caso de uma proposta muito boa, mas se diz feliz com os novos planos de carreira.

Na Thomas Case Associados, o número de profissionais que optam por uma “colocação por conta própria” durante o processo de outplacement aumentou 23% no primeiro semestre. Gabriel Toschi, gerente de transição de carreira da consultoria, atribui o aumento à dificuldade de recolocação no mercado – muitas vezes uma vaga não aparece, ou ao menos não uma no mesmo nível e com o mesmo salário. “Em um cenário econômico turbulento, as relações de trabalho são revistas e você acaba tendo que descobrir como continuar gerando renda mesmo sem um emprego tradicional”, diz.

A escolha mais comum entre os executivos ainda é prestar consultoria, especialmente no caso de quem é mais velho e tem dificuldade em se recolocar por conta disso. “Quanto mais cabelo branco, melhor”, diz Toschi, sobre a atividade. Segundo Lucia Costa, da Stato, cerca de 40% dos profissionais que optam por planos alternativos viram consultores. Os mais seniores também consideram a atuação em conselho. Dar aulas e empreender com o próprio negócio ou abertura de franquia também são escolhas recorrentes, bem como ocupar vagas de gestão interina.

Mesmo sem os cabelos brancos, o advogado com experiência em comércio internacional Silvio José Zulato Chaves, de 38 anos, decidiu seguir pela carreira de consultor após se desligar de uma multinacional brasileira de produção de aços planos há quatro meses. Ele estava há três anos tocando a operação da empresa em Copenhague, na Dinamarca. Lá, percebeu que os empresários do país tinham vontade de fazer negócios com o Brasil, mas desistiam por medo da corrupção, da falta de estabilidade e da insegurança jurídica. “Eles veem o país como um grande player mundial, mas que exige cuidados. Portanto, há muito preconceito e desconhecimento”, diz.

Na Dinamarca, ele conheceu os três futuros sócios da consultoria que pretende lançar nos próximos meses – dois dinamarqueses e um brasileiro que há muito tempo mora no país europeu. O objetivo principal será dar apoio a empresas que queiram entrar ou investir no Brasil. “Apesar da crise, há companhias e nichos de mercado que crescem de forma exponencial”, diz. Para Chaves, alguns segmentos como saúde, tecnologia e agronegócio oferecem muitas oportunidades para investidores e companhias dinamarquesas.
Foi no país escandinavo que Chaves também percebeu que queria mais qualidade de vida do que a carreira executiva lhe oferecia. Por isso, começou a se preparar financeiramente para se aventurar em uma nova atuação.
“Lá, aprendi o que é qualidade de vida. Eles prezam pela otimização do trabalho e assim têm mais tempo para a família”, diz. Chaves e a esposa têm planos de ter o primeiro filho no ano que vem. Desde que voltou ao Brasil, ele mora em Ribeirão Preto, onde pretende montar o novo negócio. “É uma porta interessante para receber comissões de dinamarqueses. Levá-los para São Paulo pode assustar”, diz o executivo.

Para Rafael Souto, CEO da consultoria de carreira e outplacement Produtive, a crise acentua um movimento que já vem acontecendo ao longo dos últimos anos. “Há um número crescente de executivos que percebem que depender do emprego não é sustentável. No momento de crise, isso se acelera e a pessoa antecipa os planos que tinha para o futuro por falta de alternativa.”

Em 2014, 11% dos executivos que passaram por processos de outplacement na consultoria acabaram escolhendo fontes alternativas de renda – em 2015, esse volume já pulou para 25%. Ainda assim, ele reforça que a escolha não pode ser apenas uma fuga da crise, até porque você segue lidando com o mesmo mercado. “É preciso fazer uma reflexão profunda se é o melhor para você”, diz Souto.

Os especialistas concordam que a primeira decisão a ser tomada após o profissional escolher seguir por um caminho alternativo é saber se continuará em sua área de atuação – atuando como consultor, por exemplo – ou se vai apostar em algo distinto, como um negócio próprio. Nesse caso, há consequências mais fortes caso ele queira voltar ao mercado posteriormente. “Se você estiver desconectado da sua principal atuação, o mercado vai fazer a leitura de que está obsoleto. É preciso ter pé no chão e considerar o quanto isso impacta no projeto principal de carreira”, diz Toschi, da Thomas Case.

Souto, da Produtive, recomenda que o profissional passe por um período “piloto”, experimentando a rotina na nova ocupação até tomar uma decisão. “Às vezes, é difícil para quem está em um emprego tradicional se adaptar a um novo modelo de trabalho.”

Andrea Garcez, que deixou a área de marketing de uma empresa de software em abril deste ano, durante uma reestruturação, já se acostumou com a nova rotina de tentar transformar seu hobby em carreira principal. “Antes, eu demorava uma hora e meia para chegar ao escritório e, agora, chegou ao trabalho em um minuto”, diz, sobre o espaço em sua própria casa que ela está reformando para se tornar seu ateliê de produtos artesanais.
Andrea está no processo de fazer cursos de artesanato e futuramente empreendedorismo, comprar equipamentos e planejar o processo de criação da empresa. Sua meta é ter tudo estruturado até dezembro. “É algo que faz sentido para mim e me daria mais flexibilidade para me dedicar à vida pessoal”, diz.

Valor Econômico – Letícia Arcoverde – 22/07