Da praia para as lojas

Extra RJ – Andréa Machado – 28/12/14

Sete de setembro de 1970. No dia da comemoração da Independência do país, o português Júlio Antônio Dias pisava em terras brasileiras, após uma longa viagem de navio. Aos 14 anos, chegando sozinho de uma aldeia do interior de Portugal, o jovem estrangeiro veio buscar, aqui, sua independência. Morando em Olaria, na Zona Norte do Rio, trabalhou no Cadeg, na Ceasa e em feiras e quitandas da Zona Sul. Anos depois, o português pensou: por que não juntar as frutas com o mate, bebida muito popular nas praias cariocas Foi, então, que, após ter diversas casas de suco no Rio e em São Paulo, fundou, há 20 anos, a Megamatte. A história de Júlio, o fundador, é contada por outro Júlio, o Monteiro, seu filho de 33 anos, hoje diretor executivo da rede, que tem 115 lojas em seis estados brasileiros. A previsão é fechar o ano com um faturamento de R$ 101 milhões, um aumento de 17%, com relação a 2013. Para 2015, a expectativa é abrir 31 lojas.

Como o Júlio, seu pai, veio parar no Brasil. Ele é português, de uma família muito humilde. Veio para o Brasil com 14 anos. Chegou no dia 7 de setembro. O país estava em festa pela independência. Mas a festa com que ele foi recepcionado não teria a ver com a realidade dele, porque os obstáculos foram inúmeros. Ele tinha uma tia que, num primeiro momento, ajudou. Mas que também tinha outras coisas para fazer e não pôde dar muito suporte.

Quando chegou aqui, imagino que ele tenha tido muitas dificuldades…

As dificuldades eram imensas, mas ele teve muita coragem e determinação. Hoje, o jovem só sai de casa depois dos 30 anos e ainda tem pai e mãe dando suporte. Ele saiu do país dele, veio num navio, demorou dias para chegar. Se tivesse a mentalidade dos jovens de hoje, teria voltado para Portugal logo que tivesse chegado aqui. Ele é um português, comerciante, evoluído. Não é aquele português que veio para cá e abriu uma padaria. Ele sempre extrapolou fronteiras, buscou o diferencial, sempre empreendedor, sempre pensando à frente. E até hoje é assim.

Ele sentiu ainda mais dificuldades por ser estrangeiro?

Ele era um estrangeiro e um menino. Na década de 1970, a situação econômica no Brasil era complicada. Ou melhor, o Brasil não tinha nem situação econômica. A dificuldade já era enorme se você era brasileiro, sendo estrangeiro, português, menino, sem ninguém aqui…

Como ele se virou?

Ele logo se identificou com trabalhar com frutas. Trabalhou no Cadeg, na Ceasa, foi feirante por muitos anos. Sempre gostou de trabalhar com frutas, com alimentação, com sucos. Na década de 1970, trabalhou numa quitanda, no Flamengo, na Zonal Sul do Rio. Foi quando ele teve a primeira oportunidade de ser sócio de alguma coisa. Começou como entregador de frutas. Depois, o sócio da quitanda viu que “esse garoto é bom, dá para gente contar com ele para alguma coisa”. Aí, deu uma oportunidade para ele ser atendente. Depois, virou sócio e encarregado da quitanda. Lá, ele só vendia frutas; ainda não fazia sucos. Até que teve sua primeira casa de sucos, também no Flamengo, no início da década de 1980.

A casa de sucos foi o primeiro negócio dele?

Isso. Ele teve mais de cem casas de suco. Para ele, era a maior diversão. Montar as fruteiras era o maior prazer da vida dele. Ele que trouxe essa característica para a casa de suco: atrás tem a preparação do suco, e na frente as frutas ficam expostas. Ele gostava de preparar sucos, ter uma alimentação saudável… Foi quando viajou, no início da década de 1990, para Manaus e conheceu o guaraná natural. Viu que daria um bom casamento misturar mate e guaraná natural com frutas. Ele desenvolveu receitas do mix de produtos para o que seria, então, o Megamatte. O Júlio identificou que o mate era uma bebida notória no consumo dos cariocas e quis juntar toda experiência que tinha como comerciante em casas de sucos, agregando bebidas diferentes com a base de mate. Ele levou o mate da praia para a rua. Hoje, temos no nosso mix inúmeras bebidas muito bem aceitas pelo consumidor que não levam água, mas, sim, mate. Coragem foi o que não faltou para ele naquela época.

E o guaraná natural já era famoso aqui no Rio, assim como o mate da praia?

O guaraná já estava começando a ficar conhecido no Rio de Janeiro. Tinha uma casa em Copacabana (que vendia bebidas com guaraná natural). Mas, na época, o pessoal vinculava muito o guaraná à academia, exercícios, era para dar energia. Ele levou o guaraná natural para São Paulo e montou uma loja que também tinha mate. Ele misturou essas duas receitas e veio para o Rio, a fim de abrir a primeira Megamatte, no Largo do Machado. Era junho de 1994. Foi a primeira casa de mate do Rio. O mate sempre foi uma bebida consumida pelo carioca na praia, já tinha o mate de galão fazendo sucesso. Só que era mate puro ou com limão. A quantidade de bebidas que ele desenvolveu é infinitamente maior.

Há 20 anos, quando a Megamatte começou, você freqüentava as lojas?

Em 1994, eu era muito garoto (tinha 12 anos), mas visitava a loja e adorava meu mate com leite. Em 1999, quando já tínhamos algumas lojas, disse para o meu pai que também queria ganhar o meu dinheiro e pedi uma vaga. Foi quando comecei a trabalhar no balcão. Fui trabalhar numa loja no Centro, na Rua Miguel Couto. Comecei em janeiro de 1999. Trabalhei no balcão, depois fui para o forno, virei subgerente, gerente, supervisor…

Até virar diretor executivo?

Não. Quando entrei na faculdade de Direito, me afastei. Em 2006, me formei, fui contratado numa empresa, me tornei assistente jurídico, depois advogado e resolvi abrir meu próprio escritório em 2007. Em 2005, já tinha me especializado em franchising. A Megamatte acabou virando minha cliente. Mas demorei muito a conquistar esse cliente! Eu tinha outros de franchising, mas não tinha a Megamatte. Engraçado isso… Fiquei com o escritório até 2013.

Quando voltou para a rede?

Em 2013, a Fátima Rocha (esposa do Júlio Antônio e diretora executiva da rede) recebeu a notícia de que tinha uma doença muito grave e teve que se afastar para se tratar. Ela me convidou e eu assumi a direção executiva. Ela se curou, graças a Deus! Este ano, fechei meu escritório, com mais de 200 clientes. Mas, por amor à família, mergulhei aqui.

De onde vem a erva mate?

Temos um produtor exclusivo, que fica no Sul do país. Nossa erva é orgânica. Orgânicos são os produtos mais próximos de uma alimentação 100% natural. Para ser orgânico, 70% da composição têm que vir de insumos naturais.

E as comidas são de fabricação própria da Megamatte?

Desde 1994, tínhamos um fornecedor que fazia salgados para a rede. Em 2010, ele fez uma parceria exclusiva com um concorrente e informou, do dia para a noite, que suspenderia as vendas. Já tínhamos de 40 a 50 franqueados. O Júlio fez uma reunião com os franqueados, mostrou o problema e apresentou uma solução: investir numa fábrica própria (fica em Patos de Minas, Minas Gerais). Ele dizia que a Megamatte não iria parar naquele momento, que cresceria ainda mais e que, no futuro, precisaria de uma fábrica própria…