Crescimento sim, mas comedido

Revista NoVarejo – Katia Simões – 10/09

Uma pausa para repensar o momento econômico e social pelo qual passa o país. Essa é a lição de casa dos especialistas para quem quer empreender e, principalmente, para quem está à frente do próprio negócio. Entre 2004 e 2012 assistimos ao aumento do consumo das famílias, embalado pelo crescimento real da renda, pelo aumento do emprego formal e pela expansão do crédito. O País cresceu e chamou a atenção do mundo, atraindo para cá investimentos externos diretos e novos players em todas as áreas de varejo e shopping center. O objetivo era ocupar espaço em um dos mercados com maior potencial de crescimento no mundo. Acrescenta-se a esse cenário a disposição dos grupos financeiros em investir no setor de consumo, adquirindo porcentuais de shoppings, redes de franquia e de varejo. Nos últimos dez anos, o PIB cresceu 40% e o varejo três vezes mais. As redes de bens semiduráveis, principalmente de moda, foram as que mais colheram frutos, com expansão em torno de 500% no período.

O sinal, contudo, começou a ficar amarelo ao longo de 2013, quando a população foi para as ruas a fim de pedir mudanças concretas nas políticas econômicas e sociais. As passeatas e reivindicações impactaram diretamente nos ânimos dos investidores estrangeiros, no ritmo de crescimento da economia e no volume de vendas do varejo. O comércio cresceu 4,3%, índice que apesar de ser superior ao do PIB no mesmo período (2,3%), ficou abaixo dos 8,4% verificados em 2012. Foi o menor percentual desde 2003. Assim, depois de três anos consecutivos no topo da lista entre os 30 países em desenvolvimento que possuem um ambiente mais propício para receber investimentos de redes globais de varejo, o Brasil caiu para o quinto lugar, atrás do Chile, do Uruguai e dos Emirados Árabes Unidos, no índice de Desenvolvimento do Varejo Global (GRDI), elaborado pela consultoria A.T.Keamey.

Quando passou a integrar o ranking, o Brasil ocupava a 29a posição. Nos anos seguintes, foi evoluindo até chegar ao primeiro lugar em 2011, colocação repetida em 2012 e 2013. Em 2014, porém, caiu para a quinta posição. A queda se deve principalmente às incertezas políticas e ao desempenho econômico aquém do esperado.

Pela primeira vez em uma década a indústria de shopping centers teve de lidar com um porcentual de espaços vagos nos novos empreendimentos superiores aos projetados no papel. Batemos recordes de inaugurações no ano passado, com 38 novos empreendimentos em operação. A previsão é de outra centena abrindo as portas nos próximos três anos.

Segundo os especialistas, os novos malls não estão conseguindo captar lojas satélites (entre 30 e 150 metros quadrados) em quantidades suficientes para ocupar a oferta de tantas áreas brutas locáveis. Resultado: a taxa média de desocupação nos shoppings abertos em 2013 foi de 50%, de acordo com pesquisa divulgada pelo Ibope Inteligência. E as causas para tanto espaço vazio não são difíceis de identificar: aumento do custo de ocupação e das luvas, maior cautela por parte dos franqueadores, risco do franqueado abrir uma loja em shopping novo e não ter como se manter num período mais longo de maturação, inauguração de muitos empreendimentos simultaneamente em cidades e regiões que, na prática, não revelam tanto potencial de consumo, entre outras coisas.

Apesar do pé no freio nas novas operações, os números do segmento continuam bastante positivos. Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), as vendas cresceram 8,6% em relação ao ano anterior e o faturamento somou R$129,5 bilhões em 2013. As expectativas para este ano são de um aumento de 8,5% nas vendas, com faturamento da ordem de R$ 140 bilhões.