Como formatar uma franquia

Jornal do Commercio – RJ – Naira Sales – 19/02

De olho nos números vistosos registrados na última década, empresas de todos os portes e segmentos aderem todos os dias ao sistema de franquia. Essa transição, no entanto, não é uma tarefa simples. Esse é um mercado em que o conhecimento, a capacidade, o preparo e a experiência anterior valem ouro, tamanha é a complexidade envolvida no processo. Especialistas lembram que senso crítico, senso lógico e a capacidade de dar e receber instruções são vitais nessa evolução. A Associação Brasileira de Franchising (ABF), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e consultores especializados dispõem das ferramentas necessárias para ajudar a atingir seus objetivos.

O Brasil é o terceiro País do mundo em número de franquias desenvolvidas (220 mil), superado apenas pela China e Estados Unidos, segundo o investigador e especialista no setor, Marcus Rizzo. Só em 2014 foram criadas 17.413 unidades de franquias, gerando mais de 155 mil empregos. O aumento nos últimos 10 anos foi de 127%.

Como procedimento inicial, o ideal é que o futuro franqueador se submeta a um estudo que analise e avalie o negócio por completo. “A análise de quanto conhece e domina sobre o conceito de negócio, o mix de produtos, o mercado, concorrência e público-alvo é essencial”, afirma a Diretora da consultoria Vecchi Ancona, Ana Vecchi.

De acordo com o diretor de Desenvolvimento da rede Megamatte, Rogério Gama, qualquer negócio pode se tornar uma franquia dependendo de dois fatores. “Primeiro que seja algo replicável em diferentes ambientes e contextos e não tenha aspectos limitadores; segundo que haja uma documentação dos processos envolvidos no negócio, garantindo a qualquer pessoa a possibilidade de adotar os mesmos padrões da empresa original e obter sucesso”, diz Gama.

Outro ponto importante para que a franquia de certo é o franqueador dominar totalmente a operação do negócio, dedicando a formatar o sistema de forma completa e que saiba como treinar seus franqueados acompanhando-os com uma equipe adequada. “A franquia é, acima de tudo, transferência de conhecimento, que se dá em treinamento, manuais e consultoria. A ausência de qualquer um desses três pilares fatalmente levará ao fracasso do franqueador e consequentemente, do franqueado”, comenta Gama.

Na visão dele, toda empresa franqueadora precisa ter no seu organograma, uma área de inteligência de mercado com possibilidade de análises concorrenciais e também macroeconômicas. “Somente de posse desse tipo de informação é que as franqueadoras poderão agir proativamente, e não apenas acompanhar as flutuações do mercado”.

Outro aspecto é aquele que diz respeito ao conhecimento que o empreendedor tem de gestão de negócios. Segundo ele, caso sua experiência seja basicamente comercial, não é nenhuma vergonha se cercar de consultores que possam apoiá-lo a desenvolver suas competências gerenciais. “A estruturação da empresa deve, de fato, ser feita não apenas de forma extremamente profissional, mas sobretudo, antes de iniciar o processo de concessão das franquias”, diz Gama.

Etapas

De acordo com Serrado, o processo de formatação é o momento em que a marca precisa encontrar o melhor modelo de negocio para as duas partes. Para isso é importante revisitar desde o posicionamento, missão e valores como também discutir muito bem o melhor perfil de franqueado que seja adequado a essa estratégia de crescimento e posicionamento. “Um bom contrato que reflita todos os pontos discutidos nesse processo de formatação é imprescindível para a segurança das duas partes”, afirma.

Segundo ele, as dificuldades do processo do Skipper e Pe ‘abi (restaurante de comida Japonesa) será encontrar o modelo de fornecimento que garanta a qualidade e que seja eficiente no abastecimento. “Além disso, a unidade inicial de treinamento também é um ponto ainda em discussão. As dificuldades do processo Peahi, que também prefiro chamar de desafio, estão mais em função de encontrar o modelo entre Gávea e Barra que seja mais lucrativo para os dois lados. Ou seja, um cardápio com o melhor custo/benefício (melhor markup), que não descaracterize o diferencial dos pratos. Estamos conseguindo”, garante Serrado.

Ainda segundo ele, em quatro anos a empresa contará com 40 unidades cada marca. “Para chegar nesse objetivo seremos fieis ao planejamento estratégico, com o estabelecimento das metas anuais com o constante investimento em marketing e na atualização dos produtos e lojas”, afirma Serrado.

Na opinião dele, o franchising permite que as marcas cresçam com uma velocidade bem maior do que se fosse apenas com capital e estrutura própria. “É um sistema que garante que as duas partes possam ter sucesso sem que uma se sobreponha a outra. Devemos levar em consideração que o franchising é um nicho da economia que segue tendo altas a cada ano”, opina.

Segundo o casal de empreendedores da franquia Tequesos, especializada em comida venezuelana, Vanessa Ferraz (arquiteta e brasileira) e Juan León (Designer gráfico, arquiteto e venezuelano) uniram seus conhecimentos de arquitetura comercial e branding para lançar no mundo das franquias, especificamente no setor de alimentação, um aperitivo tradicional da Venezuela. Com receita da família do Juan, tornou-se um sucesso nas festas e reuniões entre amigos e familiares no Brasil.

Segundo a empreendedora, a expectativa para este ano é ter 10 franqueados com os modelos de negócio em formato de carrinho, quiosque e foodtruck. “O processo de criação da franquia se baseia em pegar o modelo de negócio da empresa, potencializar suas virtudes e corrigir suas falhas para adaptá-lo a um modelo que permita expandir rapidamente e com baixo risco para a marca”, analisa. “Nossa maior dificuldade foi encontrar fonte de financiamento que nos permitisse iniciar o negócio e, em uma segunda fase, iniciar o processo de criação da franquia, obstáculos que temos superado com êxito”, ressalta Vanessa.

Expectativa

De acordo com o León, marca e produtos vêm tendo uma aceitação muito maior do que o esperado. “O mercado brasileiro busca novas experiências, novos sabores e com a nossa expansão conseguiremos suprir esta necessidade. Em quatro anos, esperamos estar nas cidades mais importantes do Brasil para futuramente internacionalizar nossa franquia em cidades onde o produto já é conhecido, como Cidade do Panamá, Miami e inclusive Caracas. Para esta última, tudo dependerá da situação socioeconômica e política do país”, cometa o venezuelano.

Segundo o sócio da marca Atama, voltada para a confecção de produtos para o esporte com foco nas lutas, Marcelo Porto, apesar do cenário econômico atual, as expectativas relativas ao crescimento e fortalecimento da marca são otimistas. “A formatação é dividida em etapas, entre as quais; análise de franqueabilidade consiste na análise dos números e do modelo de negócio, para conhecer a viabilidade; elaboração dos documentos jurídicos o contrato que define os direitos e deveres das partes envolvidas e os documentos exigidos pela lei do franchising e definição das estratégias e elaboração dos processos – com o know-how da franqueadora, são padronizados os processos administrativos e operacionais para auxílio do franqueado e bom andamento do negócio”, comenta Porto.

Ainda segundo ele, a expansão através das franquias ajuda no crescimento dos canais de distribuição e faz com que os produtos e a marca se fortaleçam e tenham uma maior ocupação territorial.
“Neste primeiro momento iniciaremos com as lojas franqueadas nos locais onde não possuímos distribuidores e revendedores. O lançamento de nosso modelo de franquia será na Feira de Franquia da ABF em São Paulo e já estudamos a implantação de algumas lojas no Rio de Janeiro e São Paulo até 2016. Estamos aprimorando nossos processos e investindo em infraestrutura para expandir este número de loja nos próximos anos”, revela.