Procura feminina por franquias cresce 7% em 2013

Jornal Valor Econômico – Jacilio Saraiva – 28/02 
 
O número de mulheres no comando de franquias passou de 50,2 mil, em 2011, para 65,4 mil no ano passado. De acordo com um levantamento da Rizzo Franchise, especializada no setor, os ramos de atividade preferidos pelas franqueadas são saúde e beleza, acessórios pessoais, fast food e vestuário, nessa ordem. A pesquisa ouviu 124 redes.
 
“Quase 500 mil empreendedoras se candidataram ã compra de uma franquia em 2013, um aumento de 6,9% em relação a 2012”, diz Marcus Rizzo, sócio da consultoria. “As empresárias desse mercado são extremamente focadas no negócio, buscam a satisfação antes mesmo da recompensa financeira e, durante os treinamentos, assumem a postura de ‘quero aprender’, ao contrário dos homens, com uma atitude de ‘eu já sei'”.
 
Rizzo afirma que as lideres das franquias também conseguem uma maior estabilidade com as equipes, o que gera menor rotatividade de empregados, e estão mais presentes no dia a dia da empresa. “Os homens se ausentam mais e delegam o negócio para os funcionários.” De acordo com o estudo, as lojas tocadas por mulheres também faturam 32% a mais do que aquelas com proprietários homens.
 
Na rede MyGloss, de acessórios femininos, do total de 23 unidades em oito Estados, 92% estão nas mãos de mulheres, a maioria casadas, com cerca de 40 anos de idade. “A figura da sócia é muito importante para o sucesso do nosso empreendimento, dirigido ao público feminino”, diz Rodrigo Stocco, CEO e founder da marca, criada em 2011. Ele afirma que conceder franquias apenas para empresárias ou casais, com a mulher à frente da loja, faz parte da filosofia da companhia. “Procuramos franqueadas que gostem de moda.”
 
O plano de Stocco é abrir mais 22 unidades em 2014. No ano passado, foram 13 novos pontos. O valor do investimento total para as novas franqueadas é de cerca de R$ 330 mil. O faturamento médio mensal, por unidade, é a partir de R$ 70 mil. A MyGloss fechou 2013 com um faturamento de R$ 15 milhões, quase 50% a mais do que foi obtido em 2012. Em 2014, o plano é faturar R$ 2G milhões.

Com uma loja da marca no Shopping Pátio Paulista desde agosto de 2012, Michelle Guerreiro Pinheiro, 34 anos, casada, um filho, faturou R$ 1,1 milhão em 2013 e estima faturar R$ 1,5 milhão este ano. Para ela, em geral, as mulheres “se estressam” menos que os homens à frente dos negócios. “O mais difícil é trabalhar em equipe”, diz ela, com cinco colaboradores. A empresária, ex-funcionária pública, planeja abrir outro ponto da marca este ano. “Ainda não tirei o projeto do papel por conta dos altos custos de locação nos shopping centers.”
 
De acordo com Michelle, o sucesso no comércio varejista está diretamente ligado à capacidade de vender e fidelizar clientes. “É preciso ter uma vitrine bonita, atendimento gentil e preço honesto”, diz. “Uma mulher, por ser mais detalhista e conhecer o que as outras compradoras preferem, tem mais condições de prosperar nesse ramo. Nós assumimos a posição das consumidoras.”
 
Na Kumon, de franquias de ensino de matemática, português, inglês e japonês, mais de 90% da rede têm mulheres nos cargos de comando. A marca começou em 1958, no Japão, e hoje tem mais de 1,5 mil unidades no Brasil. “Há uma maior identificação do negócio entre as mulheres porque o trabalho inclui a orientação de crianças”, diz Júlia Yurika Shiroiwa, gerente de recrutamento e desenvolvimento.
“Outro fator é o baixo investimento inicial por ser uma microfranquia.”
 
O investimento no empreendimento vai de R$ 25 mil a R$ 50 mil, com um faturamento médio mensal de R$ 17 mil. O perfil da maioria das franqueadas da Kumon é de mulheres casadas entre 30 e 35 anos, com filhos, e curso superior completo.
 
Com 54 anos, a empresária Thereza Vasconi, divorciada, dois filhos, tem uma franquia da marca há 12 anos. Com oito funcionários, além da filha, que ajuda na administração, investiu R$ 15 mil, na época, para abrir a empresa. “Comecei com 30 alunos e hoje tenho 420. Minha meta é subir esse número para 500 estudantes”, diz Thereza, formada em matemática. No ano passado, chegou a faturar R$ GO mil ao mês.
 
“Nos seis primeiros anos do empreendimento, tive dois outros trabalhos, como representante de vendas e na direção de uma lan house”, lembra. “Mas, quando passei a me dedicar exclusivamente â franquia, o retorno cresceu mais de 100%, ao ano.” Para Thereza, as empresárias têm mais senso de organização e de divisão de tarefas do que seus pares masculinos. “Conseguimos realizar mais de uma atividade ao mesmo tempo.” À frente de uma franquia da rede de salões Walter’s Coiffeur no Rio de Janeiro (RJ), a empresária Bruna Teixeira, 33 anos, casada, dois filhos, não acredita na diferença entre gêneros na direção dos negócios. “Acho que somos apenas mais determinadas e trabalhamos bem com as adversidades”, diz ela, graduada em administração de empresas e ex-gerente corporativa de uma multinacional.
 
Bruna lidera 40 funcionários e investiu R$ 490 mil para abrir o salão, em 2013. Recebe, em média, 150 clientes ao dia. faturou R$ 1,1 milhão no ano passado e a estimativa para 2014 é obter um crescimento de 20%.
 
Segundo Walter Cabral Eilho, sócio-diretor da franqueadora Walter’s Coiffeur, 60% do total de 11 franqueados são mulheres. O franqueamento da marca começou em 2004 e a rede planeja crescer 20%, em 2014. “O trabalho e a gestão das franquias no segmento de beleza e estética une o útil ao agradável. As empresárias estão atuando em um segmento que dominam por natureza”, diz. “Geralmente, nas nossas unidades, os homens são os investidores e atuam na parte administrativa e financeira das empresas.”
 
Obstáculos podem ser maiores para empreendedoras
 
Para especialistas e donos de marcas, as empresárias são mais disciplinadas e detalhistas do que os homens na direção das franquias. Conhecem bem os manuais de gestão das lojas, participam ativamente dos treinamentos e mostram um maior envolvimento com o time de colaboradores, o que diminui a rotatividade dos funcionários. Há novas oportunidades no ramo, nos setores de beleza e moda infanto-juvenil.
 
“As mulheres precisam ter paciência e capacidade de retornar ao equilíbrio emocional após sofrerem uma bateria de pressões no dia a dia”, diz Cristina franco, presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF). De acordo com a especialista, além dos setores de serviços, como beleza, cosméticos e estética, as empresárias estão expandindo a atuação em nichos de franquias antes dominados por homens, como a alimentação fora de casa.
 
As empreendedoras preferem ingressar em um segmento que já conhecem por formação acadêmica ou por experiência profissional, diz Cristina. “No trabalho, somos emotivas e, às vezes, a racionalidade masculina permite tomar decisões de maneira mais pragmática”, diz. “Mas, não existe gestão masculina ou feminina que seja melhor ou pior. Na verdade, o ideal seria mesclar as duas abordagens, que se complementam.” 
 
Para João Augusto Bueno, diretor executivo da fabrica3, consultoria especializada na gestão e expansão de redes de franquias, as empresárias do segmento são disciplinadas, perfeccionistas e respeitam as métricas dos negócios. “Porém, a maioria tende a ter um perfil mais conservador e prefere não se arriscar muito”, diz. “Há mais obstáculos para elas do que para o sexo masculino. Por incrível que pareça, ainda existe discriminação com a mulher empreendedora.”
 
No dia a dia do negócio, as dificuldades são comuns a homens e mulheres, segundo Bueno. “É preciso driblar a burocracia, a falta de incentivo, altos impostos e a mão de obra desqualificada”, diz. Com dois pontos em São Paulo da franquia Divino fogão, de refeições, a empresária Carla Brignani, 39 anos, casada, dois filhos, afirma que em setores de franquias como alimentação ou comércio as mulheres dão prioridade ao atendimento e a capacitação da equipe. “Assim que uma boa oportunidade surgir, vou abrir outra loja”, diz Carla, que comanda 48 funcionários nos dois restaurantes. Pós-graduada em marketing, ela era gerente de contas em uma agência de propaganda antes de empreender no franqueamento, com um investimento de R$ 600 mil.
 
Segundo Júlia Yurika Shiroiwa, gerente de recrutamento e desenvolvimento da Kumon, independentemente do sexo do gestor, o importante é atender bem os clientes e oferecer um produto de qualidade nas franquias. “Algumas empresárias sentem dificuldades na gestão financeira e buscam cursos ou orientação na área”, diz. No próximo mês, a ABF lança o Comitê Mulheres do Franchising, que vai discutir como contribuir para o desenvolvimento da liderança feminina nos negócios.