Franquia de menor porte é fenômeno no mercado

Jornal Valor Econômico – Carlos Eduardo Cherem – 30/08 
 
A Associação Brasileira de Franchising (ABF) criou, no ano passado, um comitê para tratar da micro e pequena empresa. O novo comitê estatuário da ABF vai cuidar de um fenômeno novo no segmento de franquias: a entrada em cena do pequeno negócio no papel de franqueador. “Temos de cuidar desse fenômeno”, diz a presidente da ABF, Cristina Franco. Quatro pequenos negócios de Minas Gerais, com duas e três unidades, tornaram-se franqueadores e captaram R$ 2,7 milhões desde o ano passado. O programa do Sebrae Minas atraiu 32 empresas de diversas regiões do Estado, sobretudo no Triângulo Mineiro e na Zona da Mata, que se certificaram para serem franqueadoras. São empresas pequenas que criaram processos operacionais e de gestão possíveis de sustentar seu crescimento por meio do modelo de franquia.
 
“A possibilidade de negócio do pequeno como franqueador é muito grande e pode crescer bastante. São marcas perenes, conhecidas em determinadas regiões.
 
Pequenas empresas que têm uniformidade nos procedimentos e uma boa gestão que podem perfeitamente se tornar franqueadoras”, diz Cristiana Franco. A executiva lembra, porém, que a franquia é uma via de mão dupla de direitos e deveres. “Os contratos entre franqueador e franqueado devem ter regras claras. A essência do franchising é a confiança”, afirma.
 
A Kapeh Cosméticos em Três Pontas (MG) cresceu rápido. Criada em 2007 pela farmacêutica Vanessa Vilela Araújo, a Kapeh inaugurou sua primeira franquia em dezembro de 2012, em Varginha (MG). “Redirecionamos nossos negócios, além de lojas próprias, vamos abrir franquias em mercados estratégicos”, diz a empresária.
 
Três anos antes de criar a Kapeh, Vanessa havia terminado os estudos e aberto uma farmácia de manipulação no município cuja base econômica é o café. Iniciou os estudos dos benefícios do café na produção de cosméticos, sobretudo pelo fato de ter propriedade de antioxidante e possuir uma alta concentração de flavonoide, produtos que podem ser utilizados na fabricação de cremes e protetores.
 
Desde 2007, quando criou a empresa, a farmacêutica iniciou um processo frenético de criação de produtos de beleza. Atualmente, a Kapeh tem cem itens comercializados, que vão de cremes hidratantes, sabonetes e xampus a óleos diversos. Vanessa Araújo criou um processo produtivo com a participação de cinco empresas fornecedoras que garantem a produção de 150 itens que são a matéria prima dos artigos da Kapeh.
 
Até 2010, a marca que comercializava os produtos somente por meio de estabelecimentos multimarcas abriu loja virtual e iniciou as vendas diretas ao consumidor, por meio eletrônico. Em 2011, abriu sua loja própria em Três Pontas, que a exemplo da fábrica, utiliza modelos operacionais e de gestão padronizados. A empresa, explica Vanessa, antes mesmo de abrir sua segunda loja própria em Varginha no ano passado, teve um estabelecimento franqueado em Pouso Alegre (MG). Ambas as cidades são próximas de Três Pontas.
 
Atualmente, a marca ainda exporta algo em torno de 5% da produção para Portugal e Holanda. Os franqueados da Kapeh terão de fazer investimentos estimados em R$ 120 mil numa loja de 25 metros quadrados em municípios com mais de 100 mil habitantes. Os royalties são de 2% sobre o faturamento bruto e a projeção de retorno dos investimentos é entre 18 e 3G meses.
 
O empresário Lúcio Flávio Aleixo Filho, após uma bem sucedida carreira de proprietário de empresa franqueadora de futebol de salão nos Estados Unidos, observou que, com exceção do tênis, artes marciais e bicicleta, não há lojas especializadas em esportes no país. Só estabelecimentos genéricos que vendem produtos de todos esportes. “Vi que não havia lojas especializadas em produtos para o futebol e o negócio deu certo”, diz Aleixo Filho.
 
No início da década de 2000, ele estudou em Kansas (EUA) e descobriu na liga de futebol de salão da cidade, sem fins lucrativos, uma possibilidade de negócio. “Procurei a entidade e começamos a trabalhar juntos. Criamos um know-how, um modelo para administrar as ligas e os campeonatos. Era uma coisa sem fim lucrativo e tornou-se altamente lucrativo. Assim, pudemos fazer franquias e comercializar o modelo que criamos na liga de Kansas”, disse. A franqueadora recebia pelo número de atletas que participava dos campeonatos de ligas de outras cidades, que chegou a 30 mil. Mas a maior parte do lucro vinha dos artigos esportivos comercializados.
 
Em 2008, de volta ao país, Aleixo Filho abriu a loja Clube dos 13, especializada em artigos de futebol, em área nobre de Belo Horizonte. No ano passado, abriu a segunda loja num shopping popular na Zona Leste da capital mineira. O próximo estabelecimento será franqueado. O empresário projeta um retorno do investimento entre 24 e 30 meses, após a abertura da loja. Os investimentos para uma franquia da marca Clube dos 13 giram entre R$ 80 mil (quiosque), R$ 200 mil (loja de ma) e R$ 300 mil (loja em shopping). A taxa de royalties, dependendo do negócio, fica entre 4% e 7% do faturamento. Aleixo Filho diz que o faturamento mensal de uma loja pode chegar a R$ 80 mil e a margem de lucro é projetada em torno de 15% a 20%.
 
A presidente da ABF lembra que há milhares de micro e pequenas empresas espalhadas pelo país que adquiriram uma reputação regional e, aliados a um processo cultural criado dentro da empresa, produtivo e de gestão, eles podem ser copiados e realizados por outras empresas. Exemplo disso, explica ela, são empresas de alimentação como lanchonetes e sorveterias, que têm produtos únicos, conhecidos e prestigiados em determinadas regiões, além de bons processos de produção e gestão.
 
A executiva explica que, além da questão do pequeno empresário tornar-se franqueador, há também o fenômeno paralelo da “explosão” no crescimento dos negócios com valores inferiores a R$ 80 mil nessa modalidade de negócio. “Fizemos uma nova formatação para negócios de até R$ 80 mil de franqueados. É um novo momento para os pequenos investidores que buscam novas formas de negócios e não têm grande capacidade de investimento”, afirma.
 
Dos cursos de línguas na década de 1980 e 1990, explica Cristina Franco, a modalidade franquia foi saindo das salas de aula e tornando-se cada vez mais utilizada como forma de negócio pelas micro e pequenas empresas.