Em busca das oportunidades

Meio Mensagem – Flávia D’Angelo – 08/12

Cauteloso, setor calçadista enfrenta alta concorrência, se movimenta para driblar crise no setor e tenta se diversificar

Um 2015 de ajustes. Essa é a esperança do setor calçadista sulista, que há mais de um ano, amarga com a crise no setor. Além da concorrência desleal com a China e a baixa nos pedidos do maior parceiro comercial do Brasil, a Argentina, o setor vê cada vez mais os tempos áureos ficarem para trás. A região observa a migração de empresas para outros Estados, além de enfrentar a alta no câmbio, a diminuição local dos postos de trabalho e o declínio das vendas internacionais. Outro entrave: novos players, como os italianos, passam a tomar as vendas de um nicho de sapatos de maior valor agregado. Produzir mais não é garantia de faturamento. De janeiro a agosto de 2014, em comparação à mesma época de 2013, as empresas gaúchas exportaram mais pares (11,6 milhões frente 10,9 milhões) e arrecadaram menos (US$ 261 milhões frente US$ 264 milhões).

Segundo Heitor Klein, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), a concorrência com o calçado chinês ao menos o produto que leva o carimbo de origem da China diminuiu muito no mercado doméstico após a adoção do direito antidumping contra o produto daquele país. No entanto, ele diz que como forma de driblar a medida, em 2010, começaram a chegar importações de países vizinhos da China sem tanta tradição na indústria calçadista. “É o que denominamos de triangulação das importações, pois na realidade, muitos, eram calçados chineses apenas montados nos países declarados ou até mesmo com certificado de origem falsificado” explica. De acordo com ele, a concorrência com os calçados asiáticos, certamente prejudicou a indústria calçadista ao longo deste ano, mas também não foi o principal motivador da queda nos níveis de produção.

“A demanda no varejo caiu muito no segundo semestre, afetando tanto o produto importado como o nacional. Já a queda brusca do mercado argentino se configura, aí sim, em um dos grandes responsáveis pelo desempenho negativo da indústria calçadista. Nosso segundo principal mercado encolheu suas importações de produtos brasileiros em mais de 35% durante o ano corrente. Para driblar o entrave, a indústria calçadista vem apostando em mercados alternativos e em crêscimento, porém nada consegue arrefecer os efeitos da perda de um mercado tão significativo e qualificado como o argentino” ressalta. E adverte: é um obstáculo que o calçadista terá de ultrapassar, pois a crise da Argentina não parece ter possibilidades de findar em curto prazo.

Para Marcelo Prado, diretor do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi), o problema com a Argentina acontece há anos e, embora tenha impacto nas vendas, não deve ser deixado de lado. “O problema é que não se sabe quando vai melhorar. A Argentina é um mercado difícil e inconstante, que trava entrada do produto brasileiros. Não sabemos lidar diplomaticamente com a questão e tentamos preservar esse mercado para ver se encontramos um momento melhor nessa relação. Não vale a pena tirar o pé, tem muito potencial para o mercado brasileiro” diz ele. Com a queda nas vendas para a Argentina e os investimentos estagnados em 2014, ano recessivo para o setor, a expectativa é de melhora gradual, projeta Klein. “A expectativa é de recuperação, especialmente puxada pela retomada da economia mundial em 2015. No entanto, ainda é cedo para qualquer previsão.”

Embora no RS as exportações tenham crescido neste ano, nos três Estados do Sul, segundo dados da Abicalçados, o cenário não foi o mesmo. Os três Estados exportaram o equivalente a US$ 408,1 milhões em 2013 (US$ 387 milhões do RS, US$ 11,54 milhões de SC e US$ 9,56 milhões do PR), já em 2014, entre janeiro e setembro, os três exportaram US$ 302,8 milhões (US$ 289,8 milhões do RS, US$ 7 milhões de SC e US$ 6 milhões do PR). Klein chama a atenção para a necessidade de uma mudança de cultura que vem acontecendo, segundo ele, mas a passos lentos.

“É necessário uma mudança com vista à criação de uma cultura de design, que incentive a produção baseada não mais no preço, mas em produtos com alto valor agregado, de identidade própria e marca forte no mercado doméstico e também além-fronteiras. Se o cenário econômico não é o ideal, a indústria deve fazer a lição de casa e amainar os problemas de competitividade que afetam o setor” afirma ele.

A aposta em valor agregado para fugir da concorrência no preço, onde os asiáticos são imbatíveis, é uma das recomendações para sair do quadro recessivo em que se encontra o setor calçadista. Além do chamado por Klein de “dever de casa” o motor de recuperação está atrelado a um maior apoio do governo federal, tanto em programas contínuos de desoneração como na reforma da legislação trabalhista, hoje um dos principais entraves para o desenvolvimento da indústria calçadista.

“As perspectivas serão muito baseadas na política econômica a ser adotada pelo governo reeleito de Dilma Rousseff’,’ pontua Klein. Em recente evento para avaliar o cenário do ano que vem, promovido pela Abicalçados, o economista e diretor da Faculdade de Ciência Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Hélio Henkin, afirmou que as projeções apontam que 2014 deve terminar com uma ligeira recuperação da balança comercial do setor calçadista, tendência que deve se manter por 2015, ano de ajustes, segundo ele.

A dependência de vendas para os mercados argentino e norte-americano deve estar no foco das empresas calçadistas do Sul. “É preciso pulverizar as exportações especialmente para mercados potenciais, como Colômbia, Chile, Peru, China e Rússia” disse o gerente executivo de inteligência comercial e estratégia de mercado da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Marcos Lélis. Além disso, frisou: para enfrentar a concorrência, a aposta deve ser produto com valor agregado e construção de uma marca forte. Enquanto, segundo a Apex-Brasil, as exportações de calçados de couro vêm caindo, a de chinelos e injetados aumentou nos últimos anos. “Em 2008, a fatia das exportações de calçados de couro era de 69%, ano passado ficou em 47%. Já a fatia dos chinelos aumentou de 11% para 22%. Vocês sabem por quê Marca! Tem uma marca que vende chinelos a mais de 25 euros na Europa” disse Lélis.

Nesta missão de pulverizar o mercado comprador internacional, a Abicalçados contribui com o programa de apoio às exportações Brazilian Footwear, que além de capacitar para o mercado internacional empresas em graus diferentes de maturidade, promove a participação dos associados nas principais feiras setoriais do mundo. “Temos os projetos Comprador, que promove a vinda de importadores para o mercado local, e o Imagem em âmbito nacional, que incentiva a vinda de jornalistas e formadores de opinião internacionais para as principais mostras brasileiras do setor” pontua Klein.

Estímulo ao setor

Pensando em promover o desenvolvimento da gestão e a melhoria de resultados para cerca de cem empresas gaúchas, o Sebrae/RS criou, há um ano, o projeto Qualificação da Cadeia Produtiva do Calçado. A ideia é proporcionar crescimento de forma sustentável, mas “ensinando a pescar e não dando o peixe”. No projeto, cada empresa constrói seu planejamento estratégico para estabelecer objetivos e indicadores de longo prazo, algo raro no setor, e profissionalizar a gestão. Ao longo do primeiro ano, o Projeto de Qualificação da Cadeia Produtiva do Calçado promoveu cursos de capacitação nos diversos temas de necessidade das empresas, ofereceu workshops de curta duração e, principalmente, deu consultorias de intervenção nas áreas de processo, design, inovação, marketing, finanças, planejamento estratégico e recursos humanos. O projeto é gerido pelo Sebrae/RS com o apoio da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Sindicato da Indústria de Calçados de Novo Hamburgo, Instituto By Brasil e Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC).

As feiras também são outros incentivadores para o setor. 0 crescimento da feira Zero Grau, que conta com mais de 280 expositores e cerca de 900 marcas, aliado ao aquecimento da economia, indica boas perspectivas para os negócios. “A expectativa é positiva, pois há um consenso da retomada da economia, após a Copa do mundo e as eleições”, diz diretor da Merkator Feiras e Eventos, promotora da Zero Grau, Frederico Pletsch. O diferencial da Zero Grau é a antecipação das coleções Outono/Inverno, o que permite aos lojistas maior autonomia no abastecimento dos estoques e um olhar mais apurado das tendências para o consumidor final. Realizada pela da Merkator, neste ano, a Zero Grau investirá também na integração e oferta de informação aos seus participantes. Trata-se de uma troca de idéias para os lojistas. Batizado de Papo Legal, terá duas palestras gratuitas. Além da Zero Grau, ainda existem as feiras Fimec, Fenacouro, ABF Franchising, Francal e Couro Moda.

(N.E.: O Meio Mensagem procurou os seguintes players para esta reportagem: Piccadilly, Dakota, Grendene, Ramarim, Cristófoli, Calçados Paquetá, Malu Super Conforto, Coca Cola Shoes, Capricho Shoes, Wirth, Via Marte e Vicenza. Nenhum deles quis se manifestar sobre as ações que está adotando para driblar a crise do setor).