Com demanda por qualidade mais alta, setor se diversifica

Jornal Folha de S.Paulo – 24/11 – Redação

A demanda pela melhoria da qualidade da educação no Brasil abriu espaço para a oferta de serviços e produtos educacionais que prometem contribuir para esse objetivo.

“A divulgação das notas das avaliações externas aumentou a preocupação com os resultados”, diz o economista Naercio Menezes Filho, do Insper e da USP.

Segundo Menezes Filho, essa preocupação tem gerado um movimento positivo de busca por melhor qualidade.

O aumento da escolaridade da população também é propulsor dessa tendência.

Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, ressalta que 71% dos jovens adultos brasileiros estudaram mais do que seus pais.

“Essa geração mais estudada começa a ter filho na escola e é mais exigente quanto à qualidade do ensino.”

Na esteira desse aumento da demanda por qualidade e do desenvolvimento de novas tecnologias, têm surgido empresas que oferecem soluções inovadoras de ensino.

A israelense Mind Lab entrou no mercado brasileiro em 2005, trazida pelo empresário Valmir Pereira.

A empresa oferece uma aula de 50 minutos que -usando jogos de tabuleiro, por exemplo ajuda no desenvolvimento das chamadas competências sócio emocionais, como persistência e capacidade de trabalhar em equipe.

Por meio de parcerias com a rede pública e privada, a Mind Lab atinge hoje 400 mil estudantes e 15 mil professores em mais de 700 escolas.

“Além da aula, fazemos a formação dos professores e o acompanhamento do programa”, diz Sandra Garcia, diretora pedagógica da Mind Lab.

Para ela, a demanda pelo programa da empresa, que pode ser usado por crianças a partir de 4 anos até os jovens no ensino médio, é explicada pelo desejo de reforma curricular no ensino básico brasileiro.

Embora essa necessidade de reformulação seja amplamente reconhecida no país, ela tem demorado a decolar.

PRIMEIRA INFÂNCIA

Um número crescente de pesquisas tem mostrado a importância de estímulos educacionais logo nos primeiros anos da infância.

Na esteira dessas constatações, empresas de serviços educacionais com foco no público infantil também têm sido alvo de demanda.

A Farofa Studios usa a tecnologia para desenvolver conteúdo e produtos para o público infantil. A empresa venceu há pouco um concurso da Prefeitura de São Paulo e está recebendo apoio para a produção de um jogo que ensina princípios de programação para crianças.

A empresa, fundada há três anos, também tem fechado parcerias com instituições sem fins lucrativos que atuam na área da educação, como a Fundação Lemann.

“O brasileiro tem se preocupado cada vez mais com a educação de seus filhos. Mas o país ainda é carente na produção de conteúdo”, diz Sau- lo Ribas, sócio da Farofa.

GASTOS

A maior preocupação com ensino tem se refletido em um aumento de gastos das famílias com educação. Segundo levantamento do Data Popular, os gastos privados com matrículas e mensalidades aumentaram 19% (descontada a inflação) de 2010 a 2014.

No mesmo período, os dispêndios com livros e materiais escolares cresceram 16% (também em termos reais).

O mercado de franquias tem sentido esse movimento. Em 2013, o setor como um todo cresceu 11,9%, enquanto o segmento específico de franquias de educação e treinamento expandiu-se 16,6%.

Segundo a Associação Brasileira de Franchising, o setor foi beneficiado pela maior demanda por cursos de idiomas e profissionalizantes.

Instituições ampliam cardápio de cursos

As rápidas mudanças do mercado de trabalho, com a adoção de novas tecnologias e a maior especialização das profissões, têm levado alguns grupos de ensino superior privados a tentar inovar nos cursos oferecidos.

O Insper, centro de educação privada e pesquisa que oferece cursos de administração e economia, contará com três cursos de engenharia a partir de 2015: mecânica, mecatrônica e de computação.

A profissão é antiga, mas o conceito do curso é novo. A idéia é formar engenheiros capazes de inovar, empreender e trabalhar bem em equipe. São habilidades raras entre engenheiros brasileiros. A carência foi apontada em estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

“Essa foi a inspiração para criarmos uma escola do zero”, diz Irineu Gianesi, diretor dos cursos de engenharia da instituição.

A inspiração para o formato dos cursos veio do Olin Col- lege, uma escola de engenharia inovadora nos EUA.

O currículo do Insper tentará combinar teoria e prática desde o início dos cursos, com foco em desenvolvimento de projetos. No primeiro semestre, os alunos construirão, por exemplo, uma estação meteorológica.

O grupo Laureate também tem investido em inovação no seu cardápio de cursos.
“O mercado de trabalho exige mais especificidade. Detectamos as tendências e procuramos inovar”, diz Oscar Hipólito, diretor acadêmico do Laureate.

Ao longo da última década, o grupo -que é dono da Anhembi Morumbicriou cursos de Naturologia, Design de Games, Podologia e Visagismo (conjunto de técnicas para harmonizar elementos no rosto de uma pessoa como traços, óculos, corte de cabelo etc).
O grupo também tem investido em alta tecnologia aplicada ao ensino. Nos cursos de saúde, bonecos substituem pacientes e cadáveres.

Segundo Hipólito, é uma forma de fazer com que o aluno chegue à prática mais seguro. A tecnologia permite elevar o número de alunos atendidos. “Você consegue ensinar mais alunos em tempo menor”, diz.

Outro exemplo é a Fiap, que fez parceria com a Singularity University, instituição sediada na Nasa, a agência aeroespacial americana.

“Estudamos tecnologias que serão disruptoras daqui a 30 anos para ver a interdisciplinaridade. Como um drone pode ajudar em transporte ou como a impressora 3D pode entrar na saúde”, diz Nathalie Trutmann, diretora de inovação da Fiap, cujos laboratórios permitem aos alunos usar as tecnologias para transformar seus trabalhos de conclusão em start-ups.

A Estácio criou uma diretoria de inovação em 2013 e fomenta start-ups de alunos.