Cidades pequenas entram no mapa das grandes redes

Jornal Valor Econômico – Katia Simões – 18/12
 
Cidades como Lucas do Rio Verde (MS), Louveira (SP), Naviraí (MS) e Inhumas (GO) até pouco tempo atrás sequer figuravam no mapa de quem estava disposto a investir, principalmente, em abrir uma franquia. O cenário, contudo, vem mudando e o que antes era considerado quintal, hoje é apontado como destino principal para empreendedores dispostos a apostar em municípios com alto potencial de crescimento, baixa concorrência e grande poder de expansão. “A procura por estudos de viabilidade de mercado em cidades com menos de 50 mil habitantes têm crescido nos últimos tempos”, observa Susana Eigoli, sócia e diretora de inteligência de mercado da Geofusion, especializada em soluções de geomarketing para o mercado corporativo.
 
A razão não é difícil de descobrir. Cerca de G4 milhões de pessoas, o equivalente a um terço da população do país, vivem em cidades com até 50 mil habitantes. E não são poucas. Nada menos do que 5.0G 1, comparadas a G07 com mais de 50 mil e apenas 11 com mais de 1 milhão de habitantes. É de olho nesse universo que as redes de franchising começam a redesenhar seus planos de expansão, a fim de ganhar mercado e capilaridade.
 
Escolher o melhor endereço, entretanto, é um desafio que exige cruzamento de dados e uma boa dose de sorte para que a marca caia nas graças do consumidor. A pedido do Valor, a Geofusion elencou, com exclusividade, 20 cidades com este perfil, capazes de gerar boas oportunidades de implantação de franquias.
 
Os especialistas levaram em conta indicadores como população, PIB per capita, potencial de consumo, potencial turístico, presença de shopping center inaugurados ou a inaugurar, presença de redes de lojas varejistas e localização fora das regiões metropolitanas. Com este corte, observa-se que a região Nordeste fica de fora, destacando-se o Sudeste (11 cidades), Sul (G cidades) e Centro-Oeste (3 cidades). “O resultado não significa, contudo, que o Nordeste deva ser descartado”, enfatiza Susana. “Em um corte um pouco maior, na casa dos 70 mil habitantes, surgem boas opções por lã. Assim, a ordem é promover uma análise mais profunda se o objetivo é investir em Estados daquela região”.
 
A consultora adverte, ainda, que é essencial levar em conta as projeções futuras de expansão das cidades e da região, a instalação de universidades, hospitais e investimentos públicos de infraestrutura e níveis de crescimento, sem se deixar seduzir apenas pelas estatísticas do presente.
 
O pioneirismo tem seu preço, mas abrir mercado em cidades pequenas têm muitas vantagens como investimento menor e retorno mais rápido; em muitos casos exclusividade para atuar com a marca dentro do território e baixa concorrência.
 
Foi pautado nessas premissas que o empresário Rogério Gabriel, sócio-fundador da rede Prepara Cursos, criada em 2004, desenhou a expansão da rede em cidades de pequeno e médio porte. “O mercado de cursos profissionalizantes já era maduro, o que fez a diferença foi a nossa proposta de ensino individual, sem a necessidade de formação de turmas”, ressalta. “Nosso modelo é interativo, com aulas presenciais que são realizadas dentro da franquia com acompanhamento do educador.”
 
Como o método é individualizado, a rede conseguiu oferecer nas pequenas cidades a mesma metodologia dos grandes centros. Com 200 mil alunos inscritos, a Prepara Cursos conta com G3 franquias em cidades com menos de 30 mil habitantes. A menor é Dois Irmãos do Buriti, no Mato Grosso do Sul, com 8 mil habitantes e acesso de terra. Em Nossa Senhora da Glória, com 30 mil habitantes, no interior de Sergipe, o retorno foi imediato. Em nove meses de operação a franquia somou 500 matrículas. Outra rede que redesenhou seu plano de expansão foi a Ortodontic Center, que há dois anos só aceitava novos franqueados em cidades acima de 250 mil habitantes. A demanda para outros municípios menos povoados, entretanto, era espontânea, levando o franqueador Fernando Massi a buscar novas soluções. Num primeiro momento o plano de negócios foi reformulado para municípios abaixo de 90 mil, depois foi diminuindo ainda mais. Hoje, a rede conta com modelos de negócios para cinco perfis de cidades: até 5 mil habitantes, de 5 mil a 15 mil, de 15 mil a 30 mil, de 30 mil a 50 mil, de 50 mil a 90 mil e de 90 mil a 150 mil, além do original acima desse volume. “Para endereços com menos de 30 mil habitantes só aceitamos conversão de bandeira, as quais já somam 40 unidades”, revela Massi. “Com esta modalidade o crescimento da rede, hoje com 7G unidades e um faturamento estimado de R$ 45 milhões ao ano, será mais rápido”.
 
Na visão do empresário Clederson Cabral, fundador da Mr. Mix, rede especializada em milkshake, o grande desafio é dimensionar o fluxo de pessoas. “Por mais estudo que se faça é o dia a dia que mostrará a realidade e confirmará se a escolha foi boa ou não”, destaca.
 
Com 140 lojas em operação e GO em processo de implantação, a Mr. Mix investe forte em ações promocionais fora das capitais, onde o custo fixo da operação é menor, mas o fluxo de pessoas também diminui.
 
Não é difícil constatar que o risco de superestimar o potencial das cidades é grande, assim como a falta de um estudo mais profundo da real demanda existente pelo produto ou serviço a ser oferecido. “Se a lição de casa for feita com afinco tem área de crescimento pelo menos para os próximos três anos de forma acelerada e, a partir daí, em movimentos mais cadenciados”, afirma Gustavo Schifino, vice-presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF). Espaço é que não falta, porque sobram cidades ainda não desbravadas pelo franchising, que está presente apenas em apenas 36% dos municípios, ou seja, 2092 cidades