Beleza abre a porta aos lucros

Diário do Comercio – Karina Lignelli – 21/10
 
Há sete, oito anos, quando os cuidados com beleza e saúde ainda não haviam entrado definitivamente na “cesta de necessidades básicas” do consumidor, a estudante de Administração de empresas Marisa Peraro criou um empreendimento na área a partir de seu trabalho de conclusão de curso (TCC). A oportunidade que ela percebeu ali se corporificou em uma rede de centros de estética, que deve fechar 2013 com 30 unidades. Já Solange Lima, química de formação e terapeuta na área de saúde, há três anos investiu algum tempo e suas economias para entrar no ramo de depilação definitiva, com o diferencial “preço acessível/método indolor”. Aposta certeira: ela se prepara para abrir o segundo ponto. 
 
No ramo de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, que cresce na faixa dos 10% anuais nos últimos 17 anos e que é o terceiro mercado do mundo (dados do Euromonitor de 2012), o franchising não fica atrás. Marisa, dona da rede Pró-Corpo Estética, e Solange, franqueada da rede D’pil são exemplos disso. Saúde e beleza é a segunda categoria no ranking da Associação Brasileira de Franchising (ABF) com crescimento mais significativo nos últimos três anos: 11,4% de 2010 para 2011 e 21,4% daí a 2012 diz Cláudia Bittencourt, diretora geral do Grupo Bittencourt. 
 
Outro levantamento, da Rizzo Franchise, mostra que só nos primeiros seis meses deste ano o segmento Saúde e Beleza registrou 13 novas redes e ganhou 722 unidades franqueadas. “São várias redes que estão se estruturando para o varejo via franchising. Assim como a indústria, que busca uma forma de entrar para o canal da mesma forma, puxadas pelo crescente interesse do consumidor por cuidados pessoais, que tem evoluído no mundo e segue a mesma tendência no Brasil”, diz Cláudia. 

Como cada vez mais mulheres procuram por clínicas de estética que, além do tratamento, oferecem estrutura para aplicação de produtos, a transformação desses estabelecimentos em empreendedores já é uma realidade. “Por isso a tendência é que o segmento continue a crescer na faixa dos dois dígitos no franchising, já que há muitas marcas que ainda não atuam como redes ou só têm lojas próprias”, completa Cláudia. 

O arrojado plano inicial da rede Pró-Corpo de Marisa Peraro, que prevê 500 lojas em cinco anos, assim como a aquisição da segunda unidade da D’pil por Solange Lima, mostram o quanto esse mercado ainda promete. Marisa, cujo TCC foi a ponte para encontrar o “ponto de equilíbrio entre e qualidade e preço” – essenciais para ela na hora de abrir um empreendimento – deu certo. De quebra, ainda oferece “resultado garantido a preço acessível”, afirma. 
 
Crescimento
 
“Conseguimos encaixar esse ponto em uma necessidade do mercado por centros de estética que resolvessem problemas como gordura localizada, depilação definitiva, aplicação de botox, e etc. Hoje, elas se preocupam muito mais em gastar com estética e se cuidar – tanto que identificamos a oportunidade de criar produtos e tratamentos para agregar harmonia e bem-estar ao cliente”, afirma a idealizadora e sócia-diretora da Pró-Corpo, rede que hoje tem seis unidades próprias, nove franqueadas e deve fechar 2013 com 30 no total. 

Já Solange não comprou a franquia da D’pil, segundo ela própria, foi a ideia da depilação indolor a preço acessível que a comprou, brinca. Após pesquisar bastante, já que ia juntar capital com o irmão para investir em um negócio próprio. “Não éramos investidores, mas pessoas que tinham dinheiro guardado”, conta. Depois de estabelecida, se espantou com a velocidade com que a franquia cresceu. 

“Conseguimos equiparar entrada e a saída de caixa já no terceiro mês, e em um ano já estávamos reinvestindo”, lembra Solange, que expandiu a unidade no mesmo prédio no Tatuapé para a quarta sala, e agora segue para a segunda unidade. Ela dá um dica. “Pela segunda vez constatei: o ponto é o fator principal para dar certo”, diz, referindo-se aos tempos em que atendia como terapeuta autônoma e teve sucesso parecido pelo mesmo motivo.
 
Marlon Sampaio, diretor da D’pil conta que a rede em teve um crescimento “absurdo” em quatro anos: assinou 420 contratos. Ele atribui o sucesso tanto ao fato de o negócio ter o formato de franquia quanto por ser do ramo da estética – que permite capilarização muito rápida, desde a assinatura do contrato ao início efetivo da operação. O ônus disso, segundo ele, é a estruturação rápida do negócio, já que, “quando abre para atender dez, logo aparecem 200 interessados”, brinca. 

Para Sampaio, esse desafio deu consistência à rede. “Estamos em um mercado que trata de pessoas, que mexe com depilação definitiva, redução de medidas, e tem muita monitoração de padrões para atender ao cliente final com alta tecnologia, mas a um preço baixo. Por isso outro desafio é oferecer reciclagem e treinamentos constantes. Se isso for feito do início, a curva de crescimento será muito mais rápida”, afirma Sampaio, que diz que a D’pil espera crescer 17% em 2013– número “ainda saudável”, segundo ele, apesar de menor que os 27%, de 2012. “Comparado a outros setores, é um número bastante expressivo”. 

Passar experiência é parte do negócio
 
Para Marcos Rizzo, consultor e especialista da Rizzo Franchise, beleza e saúde é uma área “absolutamente fantástica” que continuará a crescer pelo menos nos próximos cinco anos. Isso porque o desejo por consumir ainda continua um grande negócio, devido à grande procura por salões de beleza, clínicas de tratamento cosmético ou academias de ginástica. “As franquias bem colocadas do setor nem precisarão de grandes diferenciais para se destacar, pois não só a nova classe de consumo, mas o mercado todo está ávido por esse tipo de produto ou serviço”, explica. 

Usando como exemplo a indústria, que tem migrado para todos os segmentos do franchising, essa é uma estratégia de consolidação da marca que dá mais visibilidade para aproveitar ainda mais esse bom momento, explica Cláudia Bittencourt, citando O Boticário como a pioneira do ramo a entrar no franchising, e marcas de tratamento estético, como a Adcos, e de cosméticos, como Mahogany. 

“Se não houver uma rede estruturada, a marca corre certo risco de perder representatividade. Além de ser uma forma de criar barreiras para a concorrência estrangeira, já que muitas redes estão chegando ao mercado nacional, alerta. 

Por outro lado,Rizzo sinaliza que o setor de saúde e beleza no franchising também apresentará taxas de mortalidade, já que muitas operações são incipientes em termos de negócio e foram criadas na esteira desse boom. Ele menciona outro levantamento de sua empresa, que aponta que 31% dos franqueadores têm “zero experiência” e nunca operaram seu empreendimento – isso em um sistema onde a característica principal é a transferência de know how do negócio do franqueador ao franqueado. 

“Antes de comprar uma franquia, veja o tempo de experiência, quantas unidades próprias tem e já operam. Também vale conversar com franqueados para entender que tipo de suporte se recebe de verdade. Por não ter sustentação, muitas operações desaparecem em um ou dois anos”, alerta.