Os desafios globais do Estado em 2030 e os pequenos negócios no Brasil

Recentemente a KPMG apresentou em seu relatório, “O Futuro do Estado em 2030”, as nove megatendências mundiais que englobam os desafios que irão exigir atenção dos governantes em todo o mundo, nos próximos 16 anos. São elas: mudanças demográficas, ascensão das classes sociais, inclusão tecnológica, economias interligadas, dívida pública, alterações no poder econômico das nações, mudanças climáticas, escassez de recursos e urbanização.

Em uma rápida análise o relatório revela que os governantes continuam pensando e agindo no curto prazo. Buscam justificativas como a crise econômica mundial ou ainda demandas locais mal resolvidas, mas o fato é que a lógica do estado em grande parte do mundo ainda funciona de forma insustentável. A publicação divulgada após quase dois anos da realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 vem reforçar a necessidade de os governos assumirem efetivamente posições que revelem suas capacidades de refletir, planejar e agir diante de uma realidade que se agrava a cada dia exercendo uma tensão crescente no uso dos recursos naturais, como por exemplo, a água, na instabilidade da economia mundial gerada pela falta de ética e na desigualdade social expressa muitas vezes pela escancarada indiferença e ausência de compaixão. Há de fato, um caráter de urgência nas evidências e tendências.

Alguns números nos ajudam a entender a realidade expressa direta ou indiretamente no relatório. A produção global de alimentos ocupa 25% das terras habitáveis e é responsável por 70% do consumo de água potável, 80% do desmatamento e 30% da emissão de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, 1,3 bilhão de toneladas de comida são jogadas fora por ano enquanto uma em cada sete pessoas no mundo passa fome e mais de 20 mil crianças com menos de cinco anos morrem todos os dias por conta de desnutrição.

Longe de assumir um discurso apocalíptico, meu caro leitor, sou um otimista por natureza e acredito fortemente que uma massa crítica da sociedade conduzirá a humanidade em tempo hábil para um novo patamar civilizatório, portanto, a desejada sustentabilidade ainda não se caracteriza como um movimento de massa.

Nesse sentido é fundamental que as leis, a economia e o desenvolvimento tecnológico estejam a serviço da sociedade e das diferentes formas de vida, e não ao contrário. A lógica da insustentabilidade deve ser questionada e combatida pelo cidadão comum, crianças, jovens, adultos e idosos, pelos pequenos, médios e grandes empresários, enfim por toda a comunidade humana.

No Brasil assistimos nos últimos anos a ascensão de algumas classes sociais, o aumento da inclusão tecnológica, a crescente urbanização e os problemas relacionados à moradia, geração de resíduos e mobilidade urbana, sem esquecer, da forte onda de calor que assolou o país inteiro nos meses de janeiro e fevereiro, resultante das mudanças climáticas. Problema para a agricultura e felicidade para alguns setores da economia com a indústria de refrigeradores e aparelhos de ar condicionado. Bom seria se estivéssemos na fase do ganha-ganha-ganha onde o terceiro beneficiado seria o meio ambiente.

Em meio a desafios, entre eles a inflação, a despesa de consumo das famílias cresceu 2,3% em 2013. Foi o 10º ano consecutivo de crescimento desse indicador, embora seja o menor crescimento desde 2003 e os índices de pobreza caíram de 43% da década de noventa para 21% em 2010 e seguirá em tendência de queda para 16% em 2022 enquanto que a população brasileira, hoje de aprox. 200 milhões de pessoas será de 207 milhões em 2020 e deverá chegar a 219 milhões em 2040. De toda forma, os indicadores positivos não devem ofuscar a complexidade do crescimento populacional e da concentração em grandes centros urbanos.

É hora das pequenas empresas assumirem um papel fundamental na colaboração para o desenvolvimento sustentável e assim, engrossar fileiras no enfrentamento aos desafios apresentados pela KPMG. Elas estão presentes desde os mais distantes vilarejos até as megacidades em todo o território nacional e, muitas vezes desconhecem sua força e poder de influência.  Seguindo a lógica vigente, o setor representa 20% do PIB brasileiro, congregando atualmente 8,5 milhões de empresários e projetando 13 milhões em 2022 e, portanto, deve fazer valer a sua voz.

A nova lógica, porém, não deverá seguir somente o caminho das restrições ou do interesse polarizado de determinados setores da economia, mas o caminho da produção e do consumo consciente, uma oferta diferente para um consumidor diferente. O durável mais que o descartável, o local mais que o global, o virtual mais que o material, o aproveitamento integral e não o desperdício, o compartilhado mais que o individual, a cooperação mais do que a competição, o saudável nos produtos e na forma de viver, o melhor com qualidade para mais pessoas, entre outros caminhos que felizmente já estão sendo trilhados por diversas empresas nacionais e internacionais que pautam os setores em que atuam. Muitas delas tiveram seus projetos apresentados na última edição do Retail’s Big Show realizado em Nova Iorque pela NRF – National Retail Federation, o maior evento do varejo mundial. Reveja seus caminhos individuais e setoriais e imagine-se em 2030. Faça escolhas conscientes e espalhe suas sementes. Desde já lhe desejo boa colheita e prosperidade no mais amplo sentido da palavra.